Thursday, September 28, 2006
Wednesday, September 27, 2006
TILT
Bom pessoal, eu realmente não sei o que aconteceu com os itens que deveriam estar numa barrinha ali no canto direito da página, com os arquivos e os links para o resto da parceria. Parece que o Blogger está lançando uma versão "beta" ou algo parecido, os arquivos estão sendo transferidos para outros servidores ou algo do tipo. O que interessa é que, por incrível que pareça, não fui EU quem estragou nada, portanto, tomarei a única medida posssível e condizente com o meu clássico temperamento: procrastinarei a solução até que o problema desapareça por si mesmo, da mesma maneira como ele ocorreu. Prático não? Experimentem utilizar este método para todos os dilemas que surgirem nas suas vidas. Vocês verão que nunca falha. Caso aconteça alguma coisa errada, é porque vocês não esperaram o suficiente, acreditem em mim.
A mesma idéia, expressada em palavras um pouco mais distintas, foi também apregoada pelo nobre Lord ASS, em um post que não consegui achar para colar aqui. Um dia ele aparece.
Tuesday, September 19, 2006
A CULPA É DELA
Muitos de vocês podem não saber, mas hoje é um dia muito importante para toda a assim chamada blogosfera. Neste dia, há exatos 57 anos, ocorreu um evento que transformaria a história também do futebol mundial.
Na pequena cidade de Jaguarão, mais conhecida agora que todo mundo vai celebrar o consumismo nos free-shops, nascia a pessoa responsável por colocar no mundo este que vos digita (reclamações para ela, portanto).
Tô cheirando muito ela desde sábado, já passamos pela Redenção, pelo Gasômetro, pelos restaurantes Atelier das Massas, Caverna do Ratão, Tudo pelo Social, Torre das Pizzas, tudo regado a muito chimarrão, muitos canécos de chopp e muita comida da boa.
Depois o meu médico quer que eu controle os níveis de colesterol. Sem condições.
Então, este post aqui é prá D. Eni, que hoje vai prestigiar com a sua presença nas arquibancadas a turma da pelada semanal do seu filho querido. O pai já anunciou que só vai porque é aniversário dela, pois pelo nosso futebol não vale a pena perder a Sinhá Moça. Esse é o meu pai.
Vou ficar devendo fotinho da véia, pois estou no micro do trabalho. Por falar nisso, tchau prá vocês!
Monday, September 18, 2006
CHOVE MAIS
Buenas, como o descaramento aqui não tem limites, segue abaixo os capítulos IV e V da sua emocionante minissérie "Chuva".
Eu bem havia pensado que o cap. IV estava meio que desconexo, mas agora percebo que era apenas uma prelúdio para os acontecimentos do 5º episódio. Com vocês, Ana e Bernardo:
Chuva (IV)
Sempre que a chuva os apanhava na cama, Ana e Bernardo tacitamente adiavam os planos e compromissos do dia e se deixavam ficar nus sob as cobertas, fazendo o que casais apaixonados fazem em situações como essa ou aproveitando a modorra para conversar e desperdiçar deliberadamente o tempo reservado a obrigações ou a prazeres publicáveis. Bernardo, cujo elenco de superstições só incluía dois itens, respeitava sem discutir a magia da chuva que os aproximara; Ana, ainda que acreditasse em quase tudo que não pode ser provado racionalmente, se rendia ao imperativo pluvial por uma combinação de luxúria e preguiça, sem pensar muito que sair da cama enquanto a chuva fustigava janelas e telhados talvez significasse afrontar o destino meteorológico que os unira.
Dez da manhã de um sábado. Seis meses de namoro. Garoa cantando no quintal. “Eu adoro as nossas manhãs de chuva”, Ana disse, beijando o namorado. “Um dia ainda vamos morar em Seattle”, respondeu Bernardo. “Londres”, brincou ela. “Ou, se a gente for realmente tarado, Hilo, no Havaí, onde chove 350 dias por ano. Melhor: Bergen, na Noruega – 250, porque ninguém é de ferro”, ele propôs, exibindo mais um exemplo da cultura inútil que meio mundo achava irritante e Ana considerava misteriosamente sexy. Movimentado quarto de hora mais tarde: “Mas, tipo, você já fez embaixo de chuva? Quero dizer, literalmente embaixo de chuva?”, ela perguntou. “Não, nenê. Meu retrospecto não é... (pigarro) ... colorido como o seu”. (Riso.) “Eu também nunca, ô, antipático”, ela rebateu, socando o braço dele com falsa reprovação e emendando: “Mas... bem que a gente podia, não podia?” Bernardo, cuja timidez vinha acompanhada de substancial apego ao conforto, tentou enrolar: “A gente pode tentar misturar essa coisa da chuva com o plano de fazer na praia. Porque assim a areia atrapalha menos”. Ana respondeu mostrando a língua.
Mostrar a língua era exemplo modesto dos muitos truques a que Bernardo não conseguia resistir no arsenal de sedução da namorada e, meia hora mais tarde –apesar do protesto sobre o perigo de molhar a rede-, estava nu no quintal da casa de Ana, envolvido em complicada manobra na qual tentava combinar entusiasmo não muito convicto e cuidado para não ralar nas pedras do piso porções de anatomia que lhe eram especialmente caras. No banho quente e demorado que se seguiu à travessura, o rosto de Ana exibia peculiar mistura de saciedade e triunfo, como se a idéia de ser naughty, de fazer o-que-não-se-deve, especialmente onde-não-se-deve, fosse de alguma forma até mais excitante do que seu resultado prático. Enquanto isso, Bernardo espirrava –e continuou espirrando por duas semanas, vítima de um resfriado que nem mesmo a visão de Ana cozinhando canja em sumário traje de pseudo-enfermeira foi capaz de curar. Comparando cicatrizes e seqüelas, depois da sopa e de um delicado procedimento médico que a enfermeira definiu como “tirar a temperatura”, Ana disse: “Mas valeu a pena, não valeu?” E Bernardo, claro, respondeu que sim, ainda que em algum lugar entre o coração, o cérebro e os congestionados pulmões a voz irritante da dúvida resmungasse o contrário.
Dez da manhã de um sábado. Seis meses de namoro. Garoa cantando no quintal. “Eu adoro as nossas manhãs de chuva”, Ana disse, beijando o namorado. “Um dia ainda vamos morar em Seattle”, respondeu Bernardo. “Londres”, brincou ela. “Ou, se a gente for realmente tarado, Hilo, no Havaí, onde chove 350 dias por ano. Melhor: Bergen, na Noruega – 250, porque ninguém é de ferro”, ele propôs, exibindo mais um exemplo da cultura inútil que meio mundo achava irritante e Ana considerava misteriosamente sexy. Movimentado quarto de hora mais tarde: “Mas, tipo, você já fez embaixo de chuva? Quero dizer, literalmente embaixo de chuva?”, ela perguntou. “Não, nenê. Meu retrospecto não é... (pigarro) ... colorido como o seu”. (Riso.) “Eu também nunca, ô, antipático”, ela rebateu, socando o braço dele com falsa reprovação e emendando: “Mas... bem que a gente podia, não podia?” Bernardo, cuja timidez vinha acompanhada de substancial apego ao conforto, tentou enrolar: “A gente pode tentar misturar essa coisa da chuva com o plano de fazer na praia. Porque assim a areia atrapalha menos”. Ana respondeu mostrando a língua.
Mostrar a língua era exemplo modesto dos muitos truques a que Bernardo não conseguia resistir no arsenal de sedução da namorada e, meia hora mais tarde –apesar do protesto sobre o perigo de molhar a rede-, estava nu no quintal da casa de Ana, envolvido em complicada manobra na qual tentava combinar entusiasmo não muito convicto e cuidado para não ralar nas pedras do piso porções de anatomia que lhe eram especialmente caras. No banho quente e demorado que se seguiu à travessura, o rosto de Ana exibia peculiar mistura de saciedade e triunfo, como se a idéia de ser naughty, de fazer o-que-não-se-deve, especialmente onde-não-se-deve, fosse de alguma forma até mais excitante do que seu resultado prático. Enquanto isso, Bernardo espirrava –e continuou espirrando por duas semanas, vítima de um resfriado que nem mesmo a visão de Ana cozinhando canja em sumário traje de pseudo-enfermeira foi capaz de curar. Comparando cicatrizes e seqüelas, depois da sopa e de um delicado procedimento médico que a enfermeira definiu como “tirar a temperatura”, Ana disse: “Mas valeu a pena, não valeu?” E Bernardo, claro, respondeu que sim, ainda que em algum lugar entre o coração, o cérebro e os congestionados pulmões a voz irritante da dúvida resmungasse o contrário.
Chuva (V)
Depois da gripe, as coisas mudaram entre Ana e Bernardo. Ele sentia que sua adesão menos que entusiástica aos prazeres pluviais tinha de alguma maneira demolido o sex appeal que construíra aos olhos da namorada; ela imaginava que a menção dele ao “retrospecto colorido” de sua vida amorosa representasse uma tentativa discreta de pedir que fosse menos vagaba. Bernardo provavelmente gostaria de dizer a Ana que suas ousadias acrobáticas eram causa de atração, e não de dúvida; Ana provavelmente gostaria de explicar a Bernardo que era ele a inspiração para toda aquela criatividade. Como acontece quanto a mais ou menos 95% do que as pessoas apaixonadas pensam, os dois preferiram guardar silêncio, seja por timidez, teimosia ou por vergonha de mencionar um assunto da categoria “discutindo a relação”, o epíteto que empregavam zombeteiramente para definir todas aquelas coisas chatas de que só os outros casais falavam.
Nas semanas seguintes, a distância que havia surgido entre eles por obra da indigesta mistura de delicadeza e paranóia de que estavam acometidos foi aumentando, de maneira perceptível a ponto de forçá-los a fingir que o problema não existia. Ana deixou de lado o guarda-roupa cheio de surpresas, e Bernardo parou de aparecer na casa ou no escritório dela sem convite. Os dois tentavam racionalizar as mudanças –Ana dizendo a uma amiga que era normal, depois de seis meses, “sossegar um pouco o facho”, Bernardo explicando em e-mail elíptico que amor, afinal, precisa ser mais do que sexo. (Em momento alcoólico de franqueza, Ana disse à mesma amiga que provavelmente estava gorda demais para continuar dançando nua na frente do namorado, e Bernardo –sozinho em casa na mesma madrugada de sábado em que a namorada chorava as mágoas- como sempre se olhou no espelho com a profunda certeza de que não merecia mulher como ela.)
Bernardo começou a desconfiar da possibilidade de problemas mais sérios do que acomodação, timidez ou tédio certa sexta-feira de outubro em que Ana o deixou esperando 45 minutos na porta do cinema. Depois de tentar ligar para o celular da namorada quatro ou cinco vezes, ele havia abandonado a sala das preocupações que ocupara por meia hora, diante da bilheteria, e caminhara os cinco metros que o separavam da padaria vizinha, em busca de café e cigarros. No percurso de volta, passando pelo estreito corredor que a banca de jornais posicionada diante da padoca deixava para os pedestres, ouviu cochichos elogiosos do pipoqueiro e do jornaleiro sobre uma mulher gostosa “e com aquela cara de quem acabou de dar”. Acompanhando a direção dos olhares, percebeu que falavam de Ana –parada meio sem jeito diante do cartaz amarelo do filme, em um vestido preto que lhe expunha os ombros e a parte superior das costas. Bernardo pensou em chamar a atenção dos dois engraçadinhos, mas, contemplando a namorada sem que ela o visse (o brilho nos olhos, os vestígios de rubor no rosto), acabou concordando com o veredicto do júri popular. Porque era tímido demais para um ataque público de ciúmes, ele a beijou, ignorou a desculpa longa e detalhada demais que ela ofereceu para o atraso e propôs que trocassem os ingressos e assistissem ao filme da segunda sala, que estava começando. Se Ana o conhecesse um pouco melhor, saberia que só abalo dos mais devastadores poderia ter levado o namorado a escolher um filme brasileiro.
Nas semanas seguintes, a distância que havia surgido entre eles por obra da indigesta mistura de delicadeza e paranóia de que estavam acometidos foi aumentando, de maneira perceptível a ponto de forçá-los a fingir que o problema não existia. Ana deixou de lado o guarda-roupa cheio de surpresas, e Bernardo parou de aparecer na casa ou no escritório dela sem convite. Os dois tentavam racionalizar as mudanças –Ana dizendo a uma amiga que era normal, depois de seis meses, “sossegar um pouco o facho”, Bernardo explicando em e-mail elíptico que amor, afinal, precisa ser mais do que sexo. (Em momento alcoólico de franqueza, Ana disse à mesma amiga que provavelmente estava gorda demais para continuar dançando nua na frente do namorado, e Bernardo –sozinho em casa na mesma madrugada de sábado em que a namorada chorava as mágoas- como sempre se olhou no espelho com a profunda certeza de que não merecia mulher como ela.)
Bernardo começou a desconfiar da possibilidade de problemas mais sérios do que acomodação, timidez ou tédio certa sexta-feira de outubro em que Ana o deixou esperando 45 minutos na porta do cinema. Depois de tentar ligar para o celular da namorada quatro ou cinco vezes, ele havia abandonado a sala das preocupações que ocupara por meia hora, diante da bilheteria, e caminhara os cinco metros que o separavam da padaria vizinha, em busca de café e cigarros. No percurso de volta, passando pelo estreito corredor que a banca de jornais posicionada diante da padoca deixava para os pedestres, ouviu cochichos elogiosos do pipoqueiro e do jornaleiro sobre uma mulher gostosa “e com aquela cara de quem acabou de dar”. Acompanhando a direção dos olhares, percebeu que falavam de Ana –parada meio sem jeito diante do cartaz amarelo do filme, em um vestido preto que lhe expunha os ombros e a parte superior das costas. Bernardo pensou em chamar a atenção dos dois engraçadinhos, mas, contemplando a namorada sem que ela o visse (o brilho nos olhos, os vestígios de rubor no rosto), acabou concordando com o veredicto do júri popular. Porque era tímido demais para um ataque público de ciúmes, ele a beijou, ignorou a desculpa longa e detalhada demais que ela ofereceu para o atraso e propôs que trocassem os ingressos e assistissem ao filme da segunda sala, que estava começando. Se Ana o conhecesse um pouco melhor, saberia que só abalo dos mais devastadores poderia ter levado o namorado a escolher um filme brasileiro.
Wednesday, September 13, 2006
NÃO PERCAM

De passagem, apenas para repetir a indicação do Manuca:
"HOJE BÁRBARA SOALHEIRO NO PROGRAMA DO JÔ !!!!!!!!! NÃO PERCAM!!!!!!!! QUERO VER AQUI AMANHÃ MILHÔES DE COMENTÁRIOS!!!!"
Bom, qualquer um de vocês que perde tempo por aqui, e já ficou curioso o suficiente para dar uma passeada pelo blogroll ali no canto direito da página, conhece os famous frogs e seus ilustres integrantes.
Eu não conheço a Bárbara, mas a indicação do Manuca já basta.
Vamos torcer para que o Jô não estrague mais esta entrevista.
Vai lá guria!
Monday, September 11, 2006
CONFISSÃO
"Tenho muita vergonha de escrever coisas ruins. Mas tenho muito mais vergonha de não escrever nada."
FDR.
Monday, September 04, 2006
MAIS CHUVA

CHUVA (III)
Há quem goste de churrasco, e há quem –como Bernardo- os odeie ferozmente, mas é improvável que exista alguém que considere churrascos, especialmente churrascos tribais, rurais, como cenário ideal para les affaires du couer. Não tem charme –nem mesmo charme rústico- que resista a comer maionese em pratinho de papel enquanto um aparelho de som colocado sobre o trampolim repete esganiçadamente os maiores sucessos do Simply Red. Ainda que Bernardo e Ana se tivessem acomodado em um canto discreto –os degraus de madeira da escadinha lateral da varanda-, o barulho da festa e o vento que rugia ameaçando carregar com ele as latas de cerveja morna depositadas aos pés dos dois não ajudava a criar um clima, e Bernardo, cuja discrição era essencialmente timidez, precisava de “um clima”. E de um curso de eloqüência, um remédio contra a gagueira, uma dose de antidepressivo que o fizesse esquecer a vergonha de ter perguntado a quase todos os convidados do churrasco sobre a mulher com quem dividia os degraus e a obrigação de impedir que a farofa voasse.
Depois da primeira e curta conversa na varanda, Ana pediu licença para retornar à companhia das amigas –“preciso dar uma desculpa”- e disse que voltaria em seguida. Bernardo passou 10 sofridos minutos contemplando o horizonte com um olhar que esperava meditativo, para não ter que encarar o burburinho da fofoca entre os amigos. Ana o surpreendeu voltando tão rápido quanto prometera, e com as mãos carregadas: “Te fiz um prato”. Bernardo imediatamente lembrou de ordálios semelhantes na infância -a mãe, preocupada com o desajeito paterno, cuidando de manter o marido abastecido de comida e bebida, em uma mistura de carinho, piedade e medo de vexame que Bernardo percebia em menino de maneira tão aguda quanto agora. “Ela me fez um prato”, ele pensava, enquanto os dois tateavam à procura de assunto, defendiam a farofa, ancoravam a cerveja e sorriam como se há muito já fossem aquilo que um dia viriam a ser.
“Quando parou de chover, eu voltei ao terraço para filar mais um cigarro, mas você sumiu”, Ana disse, relembrando o primeiro encontro. “Fui embora cedo. Ia me despedir de você mas...” Bernardo pensou em dizer “mas você estava com a língua na boca de um barbudo”, e como sempre se arrependeu, completando com “não te encontrei”. Ana sorriu. “Tropecei em um ex-namorado na festa. Ex-namorado saudoso, música ruim, champanhe barato, chuva: receita de caca”. Enquanto os dois conversavam, a tarde escurecia: mais e mais nuvens se acotovelavam no céu, suas fímbrias escuras iluminadas por clarões de relâmpagos que estalavam ao longe, o ar cheirando a ozônio. Não houve transição entre ameaça e dilúvio –nada de pingos, depois garoa, depois chuva, depois temporal. A tempestade chegou instantaneamente, densa e escura como sopa, apanhando metade dos convidados ainda a descoberto. Bernardo e Ana subiram correndo a escada, se esconderam em um canto da varanda poupado pela chuva. A dona do sítio chegou, encharcada, rindo. Olhou na direção da piscina: “Putz, lá se vai o som”. Bernardo, sem hesitar, guardou o óculos no bolso da camisa e saiu correndo pela chuva, na direção do trampolim. Voltou com o aparelho de som ainda funcionando, se bem que fora de rotação e em timbre de Darth Vader. Ana o abraçou, envolvendo-o em uma toalha. “Meu herói. Eu nunca imaginei que você gostasse tanto dos Tribalistas”. Meia dúzia de espectadores riram da careta de Bernardo. “Eu avisei que ia chover”, ele resmungou.
Depois da primeira e curta conversa na varanda, Ana pediu licença para retornar à companhia das amigas –“preciso dar uma desculpa”- e disse que voltaria em seguida. Bernardo passou 10 sofridos minutos contemplando o horizonte com um olhar que esperava meditativo, para não ter que encarar o burburinho da fofoca entre os amigos. Ana o surpreendeu voltando tão rápido quanto prometera, e com as mãos carregadas: “Te fiz um prato”. Bernardo imediatamente lembrou de ordálios semelhantes na infância -a mãe, preocupada com o desajeito paterno, cuidando de manter o marido abastecido de comida e bebida, em uma mistura de carinho, piedade e medo de vexame que Bernardo percebia em menino de maneira tão aguda quanto agora. “Ela me fez um prato”, ele pensava, enquanto os dois tateavam à procura de assunto, defendiam a farofa, ancoravam a cerveja e sorriam como se há muito já fossem aquilo que um dia viriam a ser.
“Quando parou de chover, eu voltei ao terraço para filar mais um cigarro, mas você sumiu”, Ana disse, relembrando o primeiro encontro. “Fui embora cedo. Ia me despedir de você mas...” Bernardo pensou em dizer “mas você estava com a língua na boca de um barbudo”, e como sempre se arrependeu, completando com “não te encontrei”. Ana sorriu. “Tropecei em um ex-namorado na festa. Ex-namorado saudoso, música ruim, champanhe barato, chuva: receita de caca”. Enquanto os dois conversavam, a tarde escurecia: mais e mais nuvens se acotovelavam no céu, suas fímbrias escuras iluminadas por clarões de relâmpagos que estalavam ao longe, o ar cheirando a ozônio. Não houve transição entre ameaça e dilúvio –nada de pingos, depois garoa, depois chuva, depois temporal. A tempestade chegou instantaneamente, densa e escura como sopa, apanhando metade dos convidados ainda a descoberto. Bernardo e Ana subiram correndo a escada, se esconderam em um canto da varanda poupado pela chuva. A dona do sítio chegou, encharcada, rindo. Olhou na direção da piscina: “Putz, lá se vai o som”. Bernardo, sem hesitar, guardou o óculos no bolso da camisa e saiu correndo pela chuva, na direção do trampolim. Voltou com o aparelho de som ainda funcionando, se bem que fora de rotação e em timbre de Darth Vader. Ana o abraçou, envolvendo-o em uma toalha. “Meu herói. Eu nunca imaginei que você gostasse tanto dos Tribalistas”. Meia dúzia de espectadores riram da careta de Bernardo. “Eu avisei que ia chover”, ele resmungou.

