Wednesday, August 30, 2006

CONTINUANDO


CHUVA (II)
Nos meses que se seguiram à festa, a cada vez que encontrava outros dos convivas Bernardo perguntava sobre Ana. A resposta era quase sempre uma pergunta -“Ana? Que Ana?”-, seguida por um leque de opções que incluía Ana Paulas, Ana Claras, Ana Marias e pelo menos duas menções a uma senhorita conhecida como “Aninha peituda”. Bernardo esclarecia, dizendo: “Não. Ana. Só Ana”, e perdia um pouco mais a esperança a cada vez que as pessoas davam de ombros e alegavam não conhecer Ana-só-Ana nenhuma.
A obsessiva curiosidade do amigo -renomado pela discrição neste ainda mais do que em outros assuntos- virou mania na turma, e “Ana-só-Ana” se tornou ao mesmo tempo código e motivo de piada. Apresentando-o à Ana errada em um jantar, Sandra disse: “Ana-não-só-Ana, esse é o Bernardo-só-Bernardo”. Todo mundo –mesmo a Ana indesejada- riu; ele não. “Muito engraçado”, resmungou. A caminho do bar, noites mais tarde, para um encontro com ainda outra Ana, esta colega de João, o doutorando em filosofia -“Mas, olha só, Bernd, ainda que ela não seja a Ana, ela é o mais-que-Ana, o além-da-Ana, a Ana Beatriz, pra ser exato” -, Bernardo pensava que talvez a solidariedade dos amigos fosse como a tal kindness of strangers –algo com que você sabe que pode contar, mas a que preço em permanente humilhação? E, ainda assim, continuava a perguntar por Ana.
Contrariando presságios aziagos sobre os idos de março, foi no final daquele mês, em um churrasco de aniversário no sítio de um amigo, que Bernardo enfim reencontrou a musa, 100 dias depois da noite de chuva no terraço. Ele a viu ao longe, usando maria-chiquinha, jeans desbotados, uma camiseta com botões no decote, absorta em conversa com uma rodinha de mulheres que incluía as duas harpias que a haviam seqüestrado na festa. Bernardo puxou Sandra pela manga, separou-a dos demais amigos: “Tá vendo aquela rodinha ali na beira da piscina? A menina de maria-chiquinha e camiseta verde claro? Ana”. Sandra conferiu: “Ana? Aquela é a Mini, tonto”. Bernardo olhou de novo: “Minnie, tipo assim a namorada do Mickey?” Sandra riu. “Não, Mini, Mini-Cris. Ela é a prima mais nova da Cris, vivia grudada nela quando a gente estava no colegial e ela no ginásio. Eu nem lembrava que o nome dela é Ana”. Enquanto Sandra saía à procura dos amigos para espalhar a fofoca, Bernardo se acomodou em um banco de madeira na varanda, tentando recuperar a calma. Foi lá que Ana o encontrou. “Ô, menino do contra”, ela riu, beijando-o no rosto. “Será que precisa chover pra você ir lá fora e me dizer oi?” Ele sorriu e apontou para as nuvens cada vez mais escuras que o vento arrastava rapidamente.

Tuesday, August 29, 2006

A PROPÓSITO DE NADA

Como todo blogueiro que se encontra imerso em uma crise criativa, adoto sempre a fácil e simples solução de copiar e colar algo que eu ache interessante e, por motivos desconhecidos, julgo que alguém também possa vir a gostar.
Como o Manuca disse certa vez, isso aqui é um blog, e a razão dele existir é que de vez em quando tem alguma coisa para ser lida, qualquer coisa, mesmo que não seja exatamente o que se queria dizer (ou ler) no momento. Como já havia algum tempo que eu não aparecia por aqui, me forcei, sob pena de torturas indescritíveis a serem auto-inflingidas em caso de descumprimento da obrigação, a digitar algo por estas paragens.
Embora ainda seja difícil me acostumar com a idéia de abrir esta página a partir de hoje e não ver o "Paul -Sóbis" ali, correndo com a bandeira colorada desfraldada. Mas são coisas da vida, vocês ainda me verão no Japão...
Bom, antes do tradicional Ctrl C + Ctrl V, um pensamento que me ocorreu hoje: não sei se é porque eu sou novo ainda, e talvez no futuro até venha a mudar de idéia, mas no momento eu gostaria que os cientistas que demandaram seus esforços e alguns bilhões de dólares na pesquisa e desenvolvimento do Viagra tivessem aplicado seus esforços em alguma cura realmente eficiente para a calvície...
e la nave va...
Com vocês, nosso special ( e frequente ) guest, Uncle Filthy:
Chuva
Quando a garoa chegou, os convidados que a música ruim ou as irreprimíveis necessidades de xaveco haviam arremessado ao terraço começaram a voltar para dentro do prédio. Ele manteve o posto, cotovelos fincados na grade de proteção e olhos fixos nas distantes luzes do vale, cigarro entre o anular e o médio da mão direita. A mulher de vestido azul e ombros nus revelados por uma écharpe diáfana de um azul mais claro se aproximou, com gotas de garoa brilhando como jóias sobre o coque severo que restringia seus cabelos avermelhados. “Posso filar um cigarro?”, pediu, parando ao lado dele, um passo atrás da grade. Ele tirou o maço do bolso interno do paletó e o ofereceu com um fracassado floreio que supostamente deveria ter feito o filtro de um cigarro saltar pela abertura. Ela apanhou o maço, bateu no topo para pescar um Marlboro, sorriu enquanto ele substituía o maço por um isqueiro que também se recusou a funcionar com maneta suavidade, forçando-o a levar o próprio cigarro aos lábios e a usar as duas mãos para desemperrar o Ronson made in China. “Obrigada”, disse a mulher, tragando e liberando a fumaça na direção das luzes que piscavam distorcidas pela chuva.
Enquanto os últimos ocupantes do terraço fugiam à garoa, as portas metálicas que separavam salão e espaço aberto deixavam escapar fragmentos de música. “Tá feia, a coisa”, ele disse, algumas tragadas mais tarde. Ela riu: “A meteorologia prevê chuvas, trovoadas e macarena”. Ele tirou o paletó, e o ofereceu como proteção contra as gotas cada vez mais densas da ex-garoa. Ela fez que não, hesitou, sorriu, aceitou. “Se apertar, sempre resta a macarena”, ele disse, apagando o cigarro com cuidado e arremessando a bituca na direção do asfalto negro da estrada que brilhava sob a chuva, uma centena de metros abaixo. “Melhor a gente entrar”, ela propôs, depois de deslizar a mão pelos cabelos molhados.
Entraram de braços dados, e ficaram parados, um pouco sem jeito, do lado de lá da porta. “Obrigada”, ela disse, devolvendo o casaco depois de varrer as gotas de chuva com o dorso da mão. “Meu nome é Bernardo”, ele se apresentou, vestindo o paletó. “O meu é Ana”, ela respondeu, estendendo a mão. “Só Ana”. Ele sorriu, prolongando o aperto de mão um pouquinho mais do que a etiqueta recomendaria. Duas moças bebinhas se aproximaram e arrastaram Ana com elas. “A gente se vê”, ele disse, enquanto as três se afastavam com um apressado tic-tac-tlec de saltos na direção da farra. Antes de desaparecer na multidão, Ana se voltou, acenou, soprou um beijo, e ele respondeu com uma continência juvenil, dois dedos levados rapidamente à têmpora. Na porta de saída, duas horas mais tarde, Bernardo a viu beijando outro cara.

Thursday, August 17, 2006

ERA EU


Em 1989, quantos anos teria Rafael Sóbis?
Três? Quatro?
Eu tinha uns treze anos, e acompanhei, com o fervor e a dedicação que somente as crianças e os loucos podem ostentar, a campanha do colorado na Libertadores daquele ano.
Acompanhei todos os jogos, minuto a minuto, e vibrava com as apresentações de Nilson (alguém lembra do Grenal do século?), Luís Fernando, Heider (que levava a alcunha de “côxa-colada”, atribuída a ele pelo meu irmão mais velho. Seria ele o equivalente de hoje do desprezado Michel, só que fazia gols de vez em quando), Aguirregaray (personagem que eu incorporava nas partidas no campinho atrás da igreja, em Pedro Osório, conhecido como ESTÁDIO DOS PLÁTANOS MONUMENTAL, em uma carinhosa alusão ao Monumental de Nuñez e numa demonstração de carinho e respeito pela escola de futebol dos nossos hermanos platinos.
Resumindo, pois não preciso refrescar a memória de ninguém, a campanha colorada foi interrompida na fase semifinal, numa inacreditável partida onde transformou-se um jogo virtualmente jogado em uma das piores tragédias já representadas no teatro localizado na beira do rio Guaíba.
Após uma vitória na casa do adversário, no Paraguai, por 1x0, o Internacional conseguiu ser derrotado de virada por 3x2 no tempo normal, no qual o goleador Nilson ainda desperdiçou uma penalidade máxima que, caso convertida, evitaria o desfecho cruel para a massa colorada presente no Beira-Rio: a eliminação nos pênaltis.
E o tempo passou.
Com ele, veio a idade, mais algumas frustrações com o nosso time, um período considerável de jejum, e a consequente perda de uma parcela considerável daquela ingenuidade e adoração infantil por clubes de futebol, jogadores e tudo mais que circunda o meio futebolístico.
Mas ontem... ontem foi fóda.
Quem estava lá sabe do que eu estou falando:
Rafael Sóbis, após extenuantes 90 minutos de pura entrega e doação ao time, à torcida, ao futebol aguerrido e voluntarioso, desfilando com a bandeira do Inter desfraldada, gigantesca em proporção ao corpo do moleque franzino, tremulando sob o vento e a chuva de uma noite típica de inverno gaúcho, para saudar a torcida que acompanhou todos os momentos desta campanha vitoriosa.
Ali, naquela hora, esqueci que os jogadores recebem salários milionários, que muitas vezes os interesses econômicos sobrepujam a ética desportiva, que existem pessoas que nunca sentaram a bunda no concreto frio e duro de um estádio de futebol e mesmo assim lucram milhões com a paixão alucinada e incondicional de bilhões de pessoas nos quatro cantos do mundo.
Eu, que contesto o significado de datas que considero mercantilistas, como dia dos pais, mães, natal, etc, etc, etc, que tanto já vi mascarados vestirem o manto colorado apenas por mais um punhado de tostões em suas já recheadas contas bancárias, eu que tanto já me desiludi com esse time...
Pois bem, esse “EU”, que acabei de descrever acima, não se agüentou, e acabou aos prantos.
Porque na hora que aquele guri correu com aquela bandeira vermelha e branca, na frente de milhares de pessoas, que acalentavam este sonho há tanto tempo que não acreditavam que realmente o nome do Sport Club Internacional seria o 21º a ser gravado em “La Copa”, na hora que ele passou exatamente na minha frente, parou, estendeu a bandeira no chão e ali repousou, com a sensação justificada de dever cumprido...
Aquele não era um mercenário. Aquele não era um jogador “profissional”. Aquele não era um qualquer.
Aquele era mais um colorado, mais uma criança que desde cedo sonhou em jogar pelo time do seu coração, mais um guri que imaginava fazer uma grande partida numa disputa de finalíssima, e em ser aclamado pela sua torcida.
Aquele era muito mais que um jogador qualquer...
Aquele guri era eu.

Monday, August 14, 2006

RENIGHT

Quem viu, viu. Quem não viu, não verá tão cedo outra apresentação de tal porte nos palcos pelotenses. Invadindo a noite na Princesa do Sul, Renight, acompanhado por um séquito de fãs ensandecidos, brindou o público da noite de sábado no Bar João 100 Gilberto com uma pequena, porém poderosa, demonstração de seu talento vocal.
Poderia ter sido mais longo? Poderia. Mas, apesar da economia no repertório, Renight foi responsável por mais uma grande noite de rock em Pelotas. A "regulação" no show - que teve uma música de duração, sem direito a bis - não impediu que o astro mostrasse no palco grande energia e inflamasse a platéia de centenas de pessoas que lotavam o bar.
Com um pretexto como este, o público ferveu. O fogo se alastrou por toda a pista e até mesmo nos corredores laterais, diante dos bares, era possível presenciar a galera dando trombadas e pulando. Pelo menos uma meia dúzia de fãs animadonas conseguiu, em diferentes momentos do show, furar o bloqueio dos seguranças, subir no palco e mergulhar em stage dives kamikazes. Todo o ânimo com o qual o pop star foi recebido fez o vocalista soltar elogios:
"Sem vocês, minha carreira não teria sentido"
Após a apresentação, os seguranças tiveram trabalho para escoltar a lenda viva até a limousine que o aguardava nos fundos do bar.
Eu garanto que foi assim que tudo aconteceu.
PS> e aqui, para nunca mais esquecer um pedaço da música no meio de uma apresentação:
Um dia, numa rua da cidade, eu vi um velhinho sentado na calçada
Com uma cuia de esmola e uma viola na mão
O povo parou pra ouvir, ele agradeceu as moedas
E cantou essa música, que contava uma história
Que era mais ou menos assim:
Eu nasci há dez mil anos atrás
e não tem nada nesse mundo que eu não saiba demais (2x)
Eu vi cristo ser crucificado
O amor nascer e ser assassinado
Eu vi as bruxas pegando fogo pra pagarem seus pecados,
Eu vi,
Eu vi Moisés cruzar o mar vermelho
Vi Maomé cair na terra de joelhos
Eu vi pedro negar Cristo por três vezes diante do espelho
Eu vi,
Eu nasci(eu nasci)
Há dez mil anos atrás(eu nasci há dez mil anos)
E não tem nada nesse mundo que eu não saiba demais (2x)
Eu vi as velas se acenderem para o Papa
Vi Babilônia ser riscada do mapa
Vi conde Drácula sugando o sangue novoe se escondendo atrás da capa
Eu vi,
Eu vi a arca de Noé cruzar os mares
Vi Salomão cantar seus salmos pelos ares
Eu vi Zumbi fugir com os negros pra floresta, pro quilombo dos palmares
Eu vi,
Eu nasci(eu nasci)H
á dez mil anos atrás(eu nasci há dez mil anos)
E não tem nada nesse mundo que eu não saiba demais (2x)
Eu vi o sangue que corria da montanha
quando Hitler chamou toda a Alemanha
Vi o soldado que sonhava com a amada numa cama de campanha
Eu li,
Eu li os simbolos sagrados de Umbanda
Eu fui criança pra poder dançar ciranda
E, quando todos praguejavam contra o frio,eu fiz a cama na varanda
Eu nasci(eu nasci)
Há dez mil anos atrás(eu nasci há dez mil anos atrás)
E não tem nada nesse mundo que eu não saiba demais
não, não porque
Eu nasci(eu nasci)
Há dez mil anos atrás(eu nasci há dez mil anos atrás)
E não tem nada nesse mundo que eu não saiba demais
Não, não
Eu tava junto com os macacos na caverna
Eu bebi vinho com as mulheres na taberna
E quando a pedra despencou da ribanceira
Eu também quebrei e perna
Eu também,
Eu fui testemunha do amor de Rapunzel
Eu vi a estrela de Davi brilhar no céu
E praquele que provar que eu tou mentindo
eu tiro o meu chapéu

Friday, August 04, 2006

EU LI

Poemas e bombas

Para me distrair dos meninos petrificados que emergem dos escombros de Beirute na capa dos jornais, ouço Jorge Drexler. Ele é um conhecido cantor uruguaio e se apresenta todos os dias no painel do meu carro, cortesia de uma amiga sensível que garimpou o CD só para me fazer um carinho. Sua Milonga Del Moro Judio é uma bofetada de poesia na insanidade da guerra:
"No hay muerto que no me duela,/ no hay un bando ganador,/ no hay nada más que dolor/ y otra vida que se vuela./ La guerra es muy mala escuela,/ no importa el disfraz que viste,/ perdonen que no me aliste/ bajo ninguna bandera,/ vale más cualquer quimera/ que un trozo de tela triste".
Como me dói saber que pertenço a esta raça contraditória, capaz de produzir poemas sublimes e armas letais. Somos tão hábeis com as palavras que muitas vezes as usamos para esconder o nosso lado perverso. Dou um exemplo: bombas inteligentes. Alguém inventou essa asneira adjetivada e muitos de nós acreditamos que a tecnologia atenuaria o morticínio de inocentes. Não demorou muito para descobrirmos que todas as bombas são estúpidas - como as pessoas que as utilizam. Outro dia vi a minha casa no Google Earth. É uma ferramenta de internet maravilhosa, que permite espionar o mundo na tela do computador. Parece mágica: a gente aproxima o planeta até identificar continentes, países, cidades, bairros e, finalmente, aquele cantinho familiar. Nunca tinha visto o telhado da minha casa daquele ângulo. Parecia que estava viajando num balão sobre o meu mundinho doméstico. Enxerguei claramente a minha garagem, o meu jardim, o muro do vizinho e até a guarita do guarda. Um brinquedinho fantástico destes só pode ter sido criado por mentes prodigiosas. Pois os senhores da guerra dispõem de instrumentos muito mais precisos e eficazes. Se sou capaz de ver a minha casa no computador do trabalho, eles certamente têm tecnologia para visualizar um cachorro atravessando a rua. Então, por que suas bombas inteligentes explodem prédios habitados por famílias que sequer entendem o significado de uma guerra? Por que seus mísseis teleguiados transformam crianças em estátuas de poeira? Nunca vou entender um absurdo desses. Por isso, faço minha as palavras de Drexler em sua bela canção pacifista:
"Y a nadie le dí permiso/ para matar en mi nombre,/ un hombre no es más que un hombre/ y, si hay Dios, asi lo quiso./ El mismo suelo que piso/ seguirá, yo me habré ido;/ rumbo también del olvido/ no hay doctrina que no vaya,/ y no hay pueblo que no se haya/ creído el pueblo elegido".
Vale para os meninos de Beirute e para os meninos de Tel-Aviv.