Sunday, October 30, 2005

MAIS OU MENOS ISSO

Guardadas as devidas proporções, me identifiquei com o que o Daniel Galera escreveu. Claro, não sou escritor nem nada desse calibre, mas isso acontece comigo: penso tanta coisa em milésimos de segundo, um flash literalmente, mas quando chega a hora de transcrever aqui, dá pau. Enfim, ele explica melhor que eu, então lá vai:
Postado em Quarta 26 Outubro 2005

Este é mais um paradoxo, que a maioria das impressões e pensamentos mais importantes na vida de uma pessoa são os que passam pela cabeça tão rápido que rápido não chega nem a ser a palavra exata, eles parecem ser tão diferentes ou alheios ao tempo normal e seqüencial do relógio que rege nossas vidas e possuem tão pouco em comum com o inglês meio linear, de uma- palavra- depois- da- outra, com o qual todos nos comunicamos que poderia levar uma vida inteira, fácil, só para expôr em detalhes um segundo do conteúdo de um clarão de pensamentos e conexões etc. - e apesar disso parece que continuamos tentando usar o inglês por aí (ou seja qual for a língua nativa usada em seu país, não precisa nem dizer) para tentar transmitir aos outros o que estamos pensando e descobrir o que eles estão pensando, quando bem no fundo todo mundo sabe que é uma charada e que faz tudo parte de uma encenação. [David Foster Wallace, “Good Old Neon”]

O trechinho acima faz parte de um dos melhores contos do David Foster Wallace que li até hoje, Good Old Neon, publicado em Oblivion. Claro que o trecho não dá conta da complexidade do conto, com seus três níveis narrativos diferentes e todos os requintes típicos do DFW, que poderiam ser taxados de exibicionismo se ele não fosse de fato um escritor brilhante que pode se dar ao luxo de fazer o que quiser. Uma das camadas do conto lida justamente com a desproporção entre o universo interior de cada indivíduo e os meios limitados que possuímos pra expressar o que se passa nesse universo, não somente pros outros mas também pra nós mesmos. A reflexão é conduzida por um personagem que se suicidou depois de perceber que estava condenado a ser uma fraude, pois não suporta a constatação de que todos seus atos desde os quatro anos de idade tiveram o objetivo de moldar uma imagem de felicidade e sucesso diante do olhar dos outros. As páginas finais são arrepiantes, inclusive porque o autor liga o limite da capacidade de comunicação do universo interior de qualquer ser humano com a incapacidade de expressão de um artista, como por exemplo um escritor, como por exemplo ele mesmo, e tudo se fecha com um clique perfeito, o clique de um conto magistral.
Quem já tentou escrever ou filmar ou desenhar ou compor alguma coisa certamente passou pela experiência de elaborar uma idéia imensa, complexa, perfeita em sua forma e suas interconexões, uma condensação abstrata de inúmeras opiniões e sentimentos, só pra sentir a quase total incapacidade de transformar aquela idéia abstrata em palavras, imagens, sons quando chega a hora de botar a mão na massa. Quando se sobrevive ao processo, mesmo o resultado bom é somente a ponta do iceberg da idéia original, e no máximo se pode ter a expectativa de que a obra resultante tenha a capacidade de apertar os botões certos nos leitores/ ouvintes/ espectadores para que, com alguma sorte, reflitam em seu inconsciente uma parte daquilo que nos moveu a buscar um meio de expressão pra começo de conversa. É como se todos vivêssemos dentro de quartos fechados (e essa analogia é emprestada do conto do DFW, já vou avisando), ligados a todos os demais quartos somente por buracos de fechadura. É muito pouco para transmitirmos o que se passa dentro de nosso quarto. Tentamos encontrar truques para descrever nossa estante de livros, o papel de parede que escolhemos, o modo como a lua cheia ilumina a cama em determinadas noites. Tocamos nosso som favorito no volume máximo, torcendo pra que alguém do outro lado da porta escute e goste também. Mas é sempre tão pouco. Então o negócio é aproveitar o buraquinho da fechadura da melhor maneira possível. Escrever é como sussurrar uma história pelo buraco. Um filme é como mostrar uma seqüência de imagens pelo buraco, e por aí vai. (Ok, agora estou desenvolvendo a analogia ao meu gosto, como já devem ter percebido). E raramente, muito raramente, bem na hora que a gente bota o olho no buraco, tem alguém espiando exatamente ali no mesmo instante. É claro que o quarto é ilusório. No fundo não existem paredes. Mas saber disso não ajuda muito, não é mesmo?
Arrisco dizer que escrever é a forma mais mentalmente extenuante de tentar transmitir nosso fluxo interior de pensamentos e impressões. As palavras são pecinhas muito pequenas, com regras de encaixe manhosas, chatinhas. Tentar transformar um clarão intuitivo em uma seqüência linear de palavras pode ser bem complicado. Mas é possível, e bons livros estão cheios de momentos “pára tudo”, porque um conjunto de páginas triunfante consegue transmitir algo da mesma forma que três segundos de alguns filmes ou algumas músicas. O poder ocasional de um olhar de um ator em um filme ou de um refrão de uma música às vezes me deixa em uma espécie de estado de graça, e buscar esse efeito em parágrafos e páginas às vezes me parece uma tarefa tão imensa que quase acredito, por um instante, que escrever é coisa de louco (não é).
É nesse sentido que o estilo prolixo e ultradescritivo e a atordoante variação lexical do DFW resultam em uma experiência de leitura única. Ele tenta transformar o mais pessoal monólogo interior e seus mecanismos subconscientes em frases, sem perder nada, sem elipses, sem atalhos. Transforma a epifania momentânea de um personagem em duas horas de leitura pausada. É como se ele quisesse que de fato tudo estivesse ali em palavras. É como montar um porta-aviões em tamanho real com pecinhas de Lego. E o que ele freqüentemente demonstra com isso é que a compreensão minuciosa do funcionamento de nossa mente, de nossas neuroses e de boa parte da filosofia séria que já foi transformada em senso comum em nossa época não muda muito nossa condição. A porta do quarto segue trancada.

Saturday, October 29, 2005

AINDA...

Prometo que um dia eu mudo de assunto. O porém é a existência de um fato que muitas vezes me tira o sono: tem gente que não conhece/gosta/é fã do Calvin & Hobbes. E isso é imperdoável. Não gosto nem de pensar no que estas pessoas estão perdendo. Então lá vai, roubado diretamente do Inagaki:
Bill Watterson, provavelmente acometido pela Síndrome de Bartleby, teve publicada sua última tira de Calvin & Haroldo em 31 de dezembro de 1995, e nunca mais publicou um desenho sequer de sua maior criação. Desde então Watterson vive recluso com a esposa em Chagrin Falls, Ohio. Não vai a convenções de quadrinhos, não assina autógrafos, não concede entrevistas e ainda solicitou à Universal Press Syndicate, que distribui mundialmente as tiras de Calvin & Haroldo, para que ela não lhe encaminhasse mais correspondências de fãs. É inevitável comparar suas atitudes com as tomadas por escritores como J. D. Salinger, Raduan Nassar ou Juan Rulfo, que espontaneamente abdicaram da literatura e foram cuidar de suas próprias vidas; que eles sejam felizes, porque merecem.
Quanto à tira publicada acima (
clique aqui para visualizá-la em tamanho maior), é preciso dizer que ela não foi desenhada por Bill Watterson. Encontrei-a em uma comunidade de fãs de Calvin, e infelizmente desconheço o seu autor. É, para mim, a mais triste, mas também uma das mais belas tiras que já vi na vida, por toda a riqueza de significados que ela apresenta. Poderia tergiversar horas sobre o universo de Calvin, amigos imaginários, conformismo social ou as asas que desaprendemos a usar. Mas, por ora, limito-me a folhear as páginas desta maravilhosa coletânea de tiras e citar as últimas palavras do último quadrinho desenhado por Watterson:

- "It's a magical world. Hobbes, ol' buddy... let's go exploring!"
PS> não é necessário clicar em todos os links, mas não percam aquele que diz "clique aqui para visualizá-la em tamanho maior" ... fala muita coisa sobre os dias de hoje.

Friday, October 21, 2005

MENINOS, EU VI

Wednesday, October 19, 2005

POR AQUI

Psiu! Ei! Você aí...
Isso.... aqui mesmo...
Ainda tem gente aqui... e de vez em quando até se escreve algumas coisas...
Na verdade, eu ando lendo tanta coisa legal nessa tal de internet, coisas simplesinhas e bobagensinhas que me fazem sorrir de canto e pensar: "báh, tinha que mostrar isso prá x, ou enviar isso para y"
Eu poderia colocar links por aqui mesmo, mas não seria a mesma coisa. Se por acaso esse ritmo prosseguir, esse blog vai acabar sendo substituído por um Stumble Upon ou coisa que o valha.

Ando com saudades dos amigos. E quem não anda? Só quem não os tem. Ou aqueles que não atingiram ainda aquela idade na qual as distâncias são proporcionais às ambições de cada um, ou aos acasos que a vida nos traz.

P.S. > hoje procurem por Paul Renault, Nêgo Beto e Cadito nas arquibancadas do Beira-rio, no jogo do Colorado contra o Boca Juniors. Dá-lhe I N T E R !!

P.S. 2. > O penúltimo lirismo:

"Quando caminha, forma vácuos onde morrem as aves."

Tuesday, October 11, 2005

ME DÁ! ME DÁ! ME DÁ!

Wednesday, October 05, 2005

NÃO FUI EU QUE ESCREVI

AMADO PELAS SOGRAS
Fabrício Carpinejar
Meus amores não eram simples. Atração à primeira vista, comigo feio, não havia como acontecer. Eu tinha a missão de acabar com a primeira impressão. Destruir os contatos iniciais. Precisava de tempo para mostrar que a inteligência podia ser mais agradável do que a beleza. Sofria por antecipação. Não poderia deixar a mulher ir no toalete, mas também não queria me amarrar numa camela. O que restava? Rezar sem denunciar o sinal da cruz. No momento em que a mulher saía para conversar com a amiga no banheiro, lamentava: "Pronto, estou destruído". É óbvio que a amiga abriria o olho e falaria horrores de mim. Conseguir a aprovação de uma única mulher numa noite é difícil, imagina de duas? O que as mulheres cochicham no banheiro são decisões francas e impiedosas. Para levar um amor a casa dependia de longas conversas e persuasão, sedução e carisma. Nada acontecia de cara, no ato, por atração. Minha vida não se resolvia no primeiro tempo. Nem no segundo. Talvez no jogo de volta, com o apoio da torcida. Já levei muito fora, dei muita mancada, pisei na bola. O que mais me dificultava nos relacionamentos adolescentes era a facilidade tremenda em conquistar a mãe da mulher com quem desejava ficar. Conquistava a sogra, não sua filha. Surgia como o par ideal da família, nunca de quem gostava. Representava o tipo cordial, educado e romântico, que não falaria palavrão em público, nem chamaria todo mundo de "cara" independente do sexo, capaz de colocar o guardanapo nos joelhos e acertar o uso dos talheres. Ou seja, o tipo mais inofensivo que existe, forjado à paz e inadequado para a guerra. É óbvio que isso somente aumentava a minha rejeição. O que uma mulher deseja na adolescência é alguém que se oponha justamente aos pais. A sogra me recebia com estardalhaço, preparava almoço ou jantar, puxava assunto. Se sua filha dizia que não queria me atender, passava o telefone a fórceps. O pior consistia em superar os elogios sem pudor (o que significava constrangimentos extremos). Nada é mais agressivo do que um elogio exagerado e falso. Certa vez a mãe de uma candidata, não encontrando o que comentar depois de falar da chuva e da escola, elogiou minhas meias e me obrigou a levantar a bainha. "Mostra para ela, mostra". Eu me senti um stripper, motivado por uivos e com notas na tanga. Ao expor minhas canelas finas e tortas, a relação morreu ali. Sem contar a figura paterna, que contava histórias infindáveis e detalhistas de pescaria, me induzia a espetar o coraçãozinho e rir ao mesmo tempo, a entender de política e negócios e da cotação da bolsa de valores (uma contradição, já que entendia apenas de mesada e recolher trocos de uma bolsa a outra da minha mãe). Desagradava-me também o fato de que poderia me tornar simpático apenas sussurrando sim diante da maioria dos assuntos desconhecidos. Quanto mais os pais gostavam de mim mais o sonho de um namoro se distanciava. Eu terminava abandonado na primeira semana, longe de resultados efetivos. Fazia eternamente sala e não chegava à cama. Sabia exatamente quando a relação começava a definhar. Na hora em que a sogra me reconhecia como seu filho. A partir deste instante, seria impossível casar, transar ou ficar com uma irmã.

REFLETINDO

“Se o cérebro humano fosse simples o bastante para que pudéssemos compreendê-lo, seriamos estúpidos demais para fazê-lo.”