O pessoal vai reclamar, eu sei. Mas não adianta, eu sou fã do cara e vocês terão que, nas palavras de uma amiga minha, "dar o braço a morder" e ler mais um texto descaradamente copiado e colado aqui, ou podem ler em primeira mão no
original.
Só posso imaginar duas reações: quem já assitiu ao filme citado, vai imediatamente se identificar com as palavras do Uncle Filthy. E quem não assistiu, como é o meu caso, vai ficar com aquele comichão atrás da orelha até conseguir descobrir em qual locadora eu vou achar esse negócio.
PS> prá não reclamarem tanto assim de mim, relato que o final de semana foi supimpa, com direito a apresentação especial da cantora que coloca no chinelo qualquer uma. Que Maria Rita que nada. A nova Elis se chama
Giana Cunha.
Sabe quando todo mundo no bar está mais preocupado com os petiscos, colocar as conversas em dia e pedir o próximo chopp do que com a música que tá rolando no ambiente? E sabe quando de repente uma guria vai até o microfone, senta como se fosse a dona do buteco e começa a cantar, e as conversas vão diminuindo, diminuindo, até não ter mais ninguém falando? E depois ainda é obrigada pelo cara que dá nome ao bar a fazer bis? Pois é, o Bar do Nito conheceu uma estrela na noite de sexta.
Para quem não esteve presente, aproveitem para sintonizar a TV COM esta semana, pois a permanência dela foi prorrogada na capital. Parece que os Sirostski não querem se livrar tão cedo dela. Aproveitem antes que ela vire correspondente internacional e aí vai ser só prá quem tiver Cnn.
Eu quero meu cd!

Ah, e aqui, o texto sobre o qual eu estava falando:
"A (des)venturaUm dos meus melhores amigos na adolescência adorava ficção científica –normal, para a idade-, mas não era exatamente um trekkie ou um desses sujeitos que calejam as pópria mão rendendo homenagem à princesa Leia. Aos 15 ou 16 anos, ateus não militantes e cinéfilos empedernidos, um dos assuntos que o Fábio gostava de discutir em nossas madrugadas de conversa (muitas delas passadas voltando a pé de cineclubes espalhados pela podreira paulistana) era a ficção científica como uma espécie de sucedâneo racionalista da religião. A tese dele era a de que, a exemplo dos religiosos, os devotos da ficção científica acreditam que deve necessariamente existir algo mais, algo maior, do que o hic et nunc: o Outro Mundo, os outros mundos.
Eu sei, eu sei, é o tipo de bobáj solene que nem a gente conseguia discutir sem escrachar, mesmo naquela idade. Mas existia alguma coisa na idéia –uma admissão tácita do sentimento de solidão, da atração do mistério (ou Mistério). Um pouco do amor do Fábio pela ficção científica derivava do medo da solidão (cósmica, se não pessoal), ou da esperança de que tudo não fosse apenas a aventura aziaga de uma audaz amebinha. Deus talvez não existisse, ou não tivesse um plano; mas em lugar de tampar o nariz e mergulhar como destroços na fedebunda corrente da História, a gente talvez pudesse acreditar que, yo, de algum lugar os alienígenas estivessem nos olhando, velando por nós ou planejando fazer churrasquinho do Capitólio.
Eu mesmo não era assim tão fã de sci-fi; já desde menino, preferia o passado ao futuro, como playground. (Para surpresa de ninguém, aliás, anos mais tarde o Fábio escolheu a Física, e eu a História). Talvez porque extremamente suscetível aos seus encantos, o melodrama usual dos pensamentos adolescentes me causava nojinho –ou seja, eu passava metade do tempo dando croque na minha pópria cabeça quando me ocorriam pensamentos da modalidade “life sucks”, “no future”, “tudo isso pra que, pô?” Sem os ETs e sem as entidades sobrenaturais, só restava o senso de ridículo para prevenir minha adesão a bestájs sorumbáticas como os darks ou os góticos (e, anyway, qualquer pessoa que passe tanto tempo quanto eles despenteando cuidadosamente o cabelo não pode acreditar de verdade no, er, vazio da, er, existência.)
Eu assisti L’Avventura pela primeira vez aos 16 anos de idade, com o Fábio e duas moças bonitinhas que a gente esperava (vainly) cativar, em sessão da meia-noite no Cineclube do Bexiga. Não cheguei bêubo (estado a que duas cervejas me reduziam, então), ou deprimido –pelo contrário, até. Tinha recebido naquele dia, podia voltar de táxi para casa, as perspectivas com as bunitignas pareciam róseas. No entanto, 145 minutos mais tarde, saí mudo do cinema (e os gentis leitores e leitoras acostumados à verborragia aqui do meu bestiário decerto podem imaginar o quanto isso é raro).
Eu ia muito ao cinema; não tinha grande conhecimento teórico sobre a cousa, ou vontade de adquiri-lo, mas fazia idéia prática de como sua gramática funcionava. A primeira coisa que me assustou em L’Avventura foi o enquadramento. E não porque fosse de alguma forma experimental, ou tacanho como o de muitos filmes, er, de vanguarda, tipassim os de Gláuber Rocha. Já que a composição de cada tomada de Aldo Scavarda parecia tão rigorosa, era evidente que aquelas escolhas não representavam um exercício fútil de isssshtilo. A esquisitice do enquadramento não era esquisita; Antonioni queria dizer alguma coisa com aquilo. Mas o que, meu são jizuis?
Depois, o roteiro. O diálogo tépido, o ennui. O filme de férias que vira história de detetive que vira história de amor, só que amor não existe. Tem pouco filme em que menos seja dito e tão pouco aconteça, em 145 minutos. A protagonista desaparece antes do final do primeiro tempo. La Vitti: “Diz ‘eu te amo’”. Ele obedece. “Diz de novo”. Ele recua: “Eu não te amo”. Ao meu lado, os três companheiros de cinema cochilam. (Das 15 pessoas presentes à sessão, 10 parecem estar dormindo.) Minha tentação era chacoalhar todo mundo: “Esse mano tá dizendo alguma coisa MUITO IMPORTANTE”. Mas eu não sabia o que (e, come to think of it, ainda não sei.)
Na saída do cinema, quatro amontoados no táxi (um Fusquinha com o banco frontal de passageiros removido, como se usava então); eu fiquei com o assento mais próximo à porta, colei o rosto ao vidro curvo da janela traseira, sem nem reparar muito que a moça estava uns 80% sentada no meu colo, com o braço envolvendo meu pescoço, olhos brilhantes de conhaque e sono. Depois de as deixarmos em casa, Fábio e eu decidimos respeitar a tradição e caminhar de volta. Ele falou muito das meninas; um pouco do filme (e pelo menos admitiu com hombridade que tinha dormido). Eu não me envergonhei ao admitir que não, não tinha entendido muito bem que cazzo o filme dizia. Mas não tive coragem de confessar que tinha, sim, sentido muito bem o que talvez quisesse dizer –vai ver que para poupar o amigo da revelação (ou desilusão) daquela madrugada.
Quando assisti L’Avventura pela primeira vez, aprendi que estamos completamente sozinhos –nem são jizuis, nem os aliens vão surgir magicamente e nos livrar do oblívio. Aprendi que amor existe e logo não existe no espaço de três tomadas. Que a distância entre as pessoas será sempre intransponível. Que a culpa por tudo isso é minha, nossa. Que a ausência é a única coisa permanente. (E, incidentalmente, que eu nunca conseguiria comer Monica Vitti –and it broke my heart.) Aliás, não sei se “aprendi” é o termo apropriado, porque resumir em palavras aquilo que o filme diz sem elas nunca vai fazer justiça ao impacto do mar, das rochas, das praças, dos rostos, das salas alongadas, das metades e quartos de tela que parecem provenientes de universos distintos. Quando tento resumir em palavras o que o filme me fez sentir, parece sempre um blablablá pseudo-existencialista de cursinho pré-vestibular. L’Avventura não explica lhufas: mostra. Ou, ainda mais doloroso, faz ver. (E provavelmente faz com que cada pessoa veja alguma coisa que ninguém mais verá.) Apesar da presença do Fábio e das meninas, saí do cinema sozinho. Sem deus, sem aliens, sem futuro. Sem amigos. Sem palavras. Sem fôlego. (E a solidão nunca foi tão bela quanto naquela noite.)"