Há alguma coisa de intrinsecamente ridículo em usar a palavra “corno”, mesmo que em pensamento, e, se bem Bernardo não tivesse qualquer dúvida quanto aos
deslizes de Ana, recusava com invejável força de vontade vestir o status que o melhor amigo apelidara “capacete viking”. Ele procurava e encontrava desculpas para o comportamento da namorada, repetia o argumento de que amor é mais que sexo, manobrava para evitar confrontos, interrompia sumariamente as mentiras que ela tentava contar para explicar os canos, atrasos, desatenções e impressões digitais alheias em lugares onde ninguém deveria estar bulindo. Quando sentia que a irritação ou a consciência da injustiça de que era vítima estavam a ponto de causar explosão, Bernardo se acalmava pensando na contagem regressiva: faltavam apenas alguns dias para o aniversário de Ana.
Como o Cebolinha ou os generais franceses de 1940, Bernardo tinha um plano infalível para acabar com a crise: comprou presentes, selecionou flores, encomendou a torta de sorvete que ela preferia, treinou durante 10 dias para cozinhar o jantar do aniversário que planejava passar ao lado de Ana desde o primeiro minuto. Na véspera, horas antes do jantar que haviam combinado, Ana ligou, sem graça, e perguntou se ele se incomodava em adiar os planos para o dia seguinte –o pessoal do escritório havia organizado uma festa naquela noite, e ela não queria parecer antipática. Bernardo rangeu os dentes mas respondeu que sim, e recusou o convite nada caloroso que Ana fez para que se juntasse a ela e aos colegas de trabalho em um bar de nome cretino. Ele jantou com o irmão e saiu do restaurante depois das 11, com o carro cheio dos sweet nothings que havia escolhido como símbolos ou oferendas de recomeço. Ainda que soubesse exatamente o que estava por acontecer, não conseguiu resistir à tentação e, 15 minutos mais tarde, estacionou meio quarteirão adiante da casa de Ana, sob a garoa de novembro.
Bernardo viu a meia-noite chegar em uma procissão de dígitos azuis no painel do CD player, embalado pelo som da bicicleta e do apito do guarda-noturno, e pela voz de Bobby Troup cantando baixinho sobre um sujeito
who was so childishly flattered and thought he’s swept her off her feet. Pelo retrovisor, vigiava as janelas escuras, o portão fechado por uma corrente, o Palio estacionado em diagonal com uma roda descuidada invadindo a faixa de grama na mistura de jardim e garagem daquela casa que sentia conhecer melhor que a sua. Por volta da uma da manhã, um carro parou diante da guia rebaixada. Pelo retrovisor interno, Bernardo viu um casal se beijando longamente, e pelo retrovisor lateral ele acompanhou a trajetória de Ana até a porta da frente, o sorridente aceno de despedida. Quando o carro passou ao lado do seu, Bernardo reconheceu no motorista o ex-namorado que havia visto aos beijos com Ana na festa em que tudo começara, quase um ano antes. Por um segundo, Bernardo sentiu pelo menos um arremedo da fúria homicida em que nunca acreditara quando a ouvira invocada como desculpa em casos de crime passional, mas o momento passou, e ele esperou até que as luzes da casa se apagassem e depositou na soleira da porta as oferendas que já não mais serviriam como marco de um recomeço. Ao entrar no carro, ele trocou o CD por uma coletânea do Clash, abriu as janelas e cantou acompanhando o disco até em casa.
Veni, vidi, vuck it.