Tuesday, October 31, 2006

JÁ QUE ESTAMOS FALANDO DE REVISTAS


"(...) Sempre que me perguntam o que é para mim o mais importante num blogue, respondo que é o ritmo de publicação de posts. Há algo de paradoxal num blogue demasiado paradinho e que lembra uma espécie de teimosia patológica em ir a festas e nunca falar com ninguém. Não que o ritmo alucinante de publicação de posts seja representativo da qualidade dos mesmos, mas num blogue activo ficamos a saber que ali algo está a acontecer: há, naquela actualização diária, um coração que bate, um braço que mexe, uma mão que tecla."
Os tempos blogosféricos, Atlântico de Novembro.
Buenas, considerem-se "actualizados" então. Aqui há um braço que mexe, uma mão que tecla, um coraç... hum, agora me lembrei, faz anos já que eu sou um homem sem coração, frio e insensível. Quase de pedra. Desculpem pelo lapso.
PS> Vou confessar uma coisa, com trinta anos no futebol (já?) tô correndo igual a um guri de 29 que eu vi no espelho semana passada...

Monday, October 30, 2006

DICA

Se eu tivesse um blog onde me fosse possível dar dicas de leitura aos meus fiéis três leitores, indicaria a recém saída do forno Revista Piauí. Textos, muitos textos. Textos quilométricos, ensaios de 5, 6 páginas, quebrando a predominância das imagens em reportagens sem conteúdo a qual estamos acostumados. Ou não. Vão lá e leiam.
Como uma palhinha, aqui vai o horóscopo deste mês para os librianos:
"Este será um mês difícil para as pessoas que acreditam em horóscopo, sejam elas de que signo forem."

(...)
LIBRA [23.09-22.10] Olhe para o céu: Vênus está quase apagada. Seu magnetismo está comprometido. Esqueça os rins e as dores na lombar, pois a carência será a grande doença do futuro próximo. Ideais amorosos nunca foram tão traiçoeiros quanto nesses próximos dias. Alivie os sintomas com colo, abraços longos, aconchego. Logo você estará mais preocupado em encontrar a pessoa certa do que em ser a pessoa certa, o que será o passo final para que você se torne um autômato, um pobre coitado definitivamente solitário, ainda que, como sempre, sejam mantidas as aparências.
Buenas, quem quiser vai lá http://www.revistapiaui.com.br e dá uma conferida. Eu vou procurar a versão impressa para dar um veredicto mais aprofundado.
Boa segunda-feira prá vocês.

Thursday, October 26, 2006

IV TAÇA PAUL RENAULT




Alguns instantâneos do evento que movimentou o panorama esportivo da capital dos gaúchos no último final de semana. Ficamos devendo as fotos do MEGACHURRASCO que aconteceu após a competição, onde uma ovelha foi roída até o garrão. E o nosso amigo Zaffari colocou a Brahma Extra em promoção, então calculem o resultado...

Monday, October 16, 2006

EPÍLOGO DA CHUVA (AGORA SIM)


“I can tell that you taste like sky
‘Cause you look like rain”
Bernardo parou de fumar há dois anos. De vez em quando ainda leva a mão ao bolso do paletó ou da camisa à procura do maço, não exatamente por desejo de nicotina mas por obra da memória táctil de um gesto repetido tantas vezes que se tornou reflexo. Ele substituiu os óculos por uma operação de miopia, mudou o corte de cabelo, mandou pintar o apartamento de amarelo (e depois desistiu), e aproveita as freqüentes viagens que uma promoção tornou compulsórias para conduzir affairs cautelosos com moças bonitinhas espalhadas por cinco capitais (e um “vibrante pólo industrial do Centro-Oeste”) –desde que não se chamem Ana. Ele ainda sente a falta dela quando chove. (Ou não chove.)
Ana voltou com o ex-namorado, teve um caso com o chefe, terminou o namoro, reatou outra vez e há pouco tempo decidiu desmanchar definitivamente (até a próxima reconciliação). Como Bernardo, ela prefere não falar sobre o que aconteceu naquelas 50 semanas, ainda que se sinta culpada por não contestar as suposições alheias de que o malvado a tenha dispensado sem motivo. Quando a chuva a surpreende acompanhada na cama, ela sempre encontra uma desculpa para adiar o etc. até que o céu se desanuvie, como se cumprindo um voto de impalpável e vã fidelidade a um passado encerrado de maneira inapelável. Em tardes solitárias de garoa, ela pensa em outra coisa e nunca chora.
Cabe ao narrador aproveitar o parágrafo final para deslumbrar os leitores com insights, generalizações filosóficas, aperçus, ironias, fogos de artifício estilísticos, chaves de ouro e promessas de perpétua felicidade (ou melancolia). Talvez fosse poético declarar que escrevo ouvindo a chuva lá fora. Mas a verdade é que não chove e, embora eu tenha inventado cada detalhe desta história, não sei por que Ana e Bernardo terminaram desse jeito (embora pudesse alegar o impiedoso triunfo da estatística), como não sei se futuras chuvas seriam capazes de reaproximá-los. Reconheço que é meio patético abusar da atenção do leitor durante sete episódios e concluir dando de ombros e declarando “shit happens”. Well, shit happens. Hoje faz sol. Amanhã, chove. Escrever não muda nada.

Tuesday, October 03, 2006

SERÁ QUE PAROU DE CHOVER?


Há alguma coisa de intrinsecamente ridículo em usar a palavra “corno”, mesmo que em pensamento, e, se bem Bernardo não tivesse qualquer dúvida quanto aos deslizes de Ana, recusava com invejável força de vontade vestir o status que o melhor amigo apelidara “capacete viking”. Ele procurava e encontrava desculpas para o comportamento da namorada, repetia o argumento de que amor é mais que sexo, manobrava para evitar confrontos, interrompia sumariamente as mentiras que ela tentava contar para explicar os canos, atrasos, desatenções e impressões digitais alheias em lugares onde ninguém deveria estar bulindo. Quando sentia que a irritação ou a consciência da injustiça de que era vítima estavam a ponto de causar explosão, Bernardo se acalmava pensando na contagem regressiva: faltavam apenas alguns dias para o aniversário de Ana.
Como o Cebolinha ou os generais franceses de 1940, Bernardo tinha um plano infalível para acabar com a crise: comprou presentes, selecionou flores, encomendou a torta de sorvete que ela preferia, treinou durante 10 dias para cozinhar o jantar do aniversário que planejava passar ao lado de Ana desde o primeiro minuto. Na véspera, horas antes do jantar que haviam combinado, Ana ligou, sem graça, e perguntou se ele se incomodava em adiar os planos para o dia seguinte –o pessoal do escritório havia organizado uma festa naquela noite, e ela não queria parecer antipática. Bernardo rangeu os dentes mas respondeu que sim, e recusou o convite nada caloroso que Ana fez para que se juntasse a ela e aos colegas de trabalho em um bar de nome cretino. Ele jantou com o irmão e saiu do restaurante depois das 11, com o carro cheio dos sweet nothings que havia escolhido como símbolos ou oferendas de recomeço. Ainda que soubesse exatamente o que estava por acontecer, não conseguiu resistir à tentação e, 15 minutos mais tarde, estacionou meio quarteirão adiante da casa de Ana, sob a garoa de novembro.
Bernardo viu a meia-noite chegar em uma procissão de dígitos azuis no painel do CD player, embalado pelo som da bicicleta e do apito do guarda-noturno, e pela voz de Bobby Troup cantando baixinho sobre um sujeito who was so childishly flattered and thought he’s swept her off her feet. Pelo retrovisor, vigiava as janelas escuras, o portão fechado por uma corrente, o Palio estacionado em diagonal com uma roda descuidada invadindo a faixa de grama na mistura de jardim e garagem daquela casa que sentia conhecer melhor que a sua. Por volta da uma da manhã, um carro parou diante da guia rebaixada. Pelo retrovisor interno, Bernardo viu um casal se beijando longamente, e pelo retrovisor lateral ele acompanhou a trajetória de Ana até a porta da frente, o sorridente aceno de despedida. Quando o carro passou ao lado do seu, Bernardo reconheceu no motorista o ex-namorado que havia visto aos beijos com Ana na festa em que tudo começara, quase um ano antes. Por um segundo, Bernardo sentiu pelo menos um arremedo da fúria homicida em que nunca acreditara quando a ouvira invocada como desculpa em casos de crime passional, mas o momento passou, e ele esperou até que as luzes da casa se apagassem e depositou na soleira da porta as oferendas que já não mais serviriam como marco de um recomeço. Ao entrar no carro, ele trocou o CD por uma coletânea do Clash, abriu as janelas e cantou acompanhando o disco até em casa. Veni, vidi, vuck it.