Espáduas nuas e barrigas pétreas
De repente, nos vimos perdidos. Estávamos nas entranhas do Estádio Mané Garrincha, eu e os repórteres da Sucursal de Brasília, o Fábio Schaffner e o Roberto Maltchik. Natural que fosse confusa a organização do jogo do Brasil, domingo passado - o Mané Garrincha é pouco utilizado pelos clubes de Brasília. Quase todos têm seus próprios estádios nas cidades-satélites. Então, havia dois mil seguranças (dois mil!), centenas de recepcionistas, muita gente na organização, sem haver a menor organização. Entramos por uma porta que não deveria servir de acesso à imprensa, fomos nos esgueirando pelos corredores internos e acabamos num lugar ermo, úmido como um calabouço, com caixas espalhadas pelo chão e um ringue encostado a uma parede. Voltamos. Perguntamos a um dos seguranças onde ir, ele abriu um portão, nos levou por outra artéria do edifício, subimos uma escada, mais uma, e ele apontou outra porta: - Por ali. Fomos. Não era. Era uma cozinha, onde senhoras de avental branco preparavam canapés. Emergimos na ante-sala dos camarotes. Um mundo reluzente: mesas compridas com travessas de camarões rosados, de pêssegos, maçãs e cachos de uva, de salgadinhos e de delicados cachorros-quentes do tamanho de um punho fechado. Ali ao lado, enormes geladeiras com latinhas de cerveja brancas de tão geladas, garrafinhas de água mineral, refrigerantes refrescantes, tonéis repletos até a boca de gelo e tubinhos de energéticos, tudo isso servido por garçons de luvas brancas e modelos com camisas azuis da Seleção amarradas num gracioso nó à altura de seus umbigos dourados, alguns com piercings faiscantes. As moças, soube depois, foram em sua maioria requisitadas por Jeanny, a alcoviteira preferida dos congressistas do mensalão. Por essas ante-salas circulavam deputados vários, dois ou três ministros, o presidente da Federação Chilena e seus acólitos, o presidente do Senado Renan Calheiros, o governador do DF Joaquim Roriz, esse tentando cabalar votos estilo Odorico Paraguassu: - Cumpri minha promessa e trouxe a Seleção a Brasília! E muitas, muitas belas mulheres, claro, elas e suas espáduas nuas e suas pernas torneadas e suas barrigas pétreas, ai. A Seleção atrai mulheres bonitas como o poder atrai a corrupção. Juliana, a do Big Brother, distribuía sorrisos alvos feito a inocência. Maitê Proença, namorada do assessor Rodrigo Paiva, era mais discreta, mas chamava a atenção tanto quanto. Ou mais. A cada jogo do Brasil, são milhares as pessoas que assistem à partida desses reservados especiais. São os convidados dos patrocinadores da CBF e da própria CBF. Passam bem, têm direito a mimos e regalias, não pagam nada. A Seleção Brasileira é um negócio lucrativo, o mundo inteiro quer ver os virtuoses da bola. A CBF sabe à perfeição como faturar com isso. Mas, para financiar esses milhares, que são mesmo milhares de ingressos gratuitos, as federações precisam cobrar caro de quem paga. Aí acontece o que aconteceu domingo: ingressos a R$ 300, o mais barato a R$ 70. É uma situação curiosa: o torcedor usual do futebol, o torcedor dos estádios, o que senta na arquibancada de pedra, toma chuva nos ombros e suporta o sol a pino nos verões, esse torcedor está banido dos jogos da Seleção. É o mercado, é a vida. A vida não é justa.
"Cautela, por favor. Só se precisa perder um jogo para perder a Copa."