Monday, November 28, 2005

MAIS SORTE QUE JUÍZO


Esse é um ditado que acompanha a maioria dos meus dias.
Passagem comprada para às 4 da manhã. Bater ponto no trabalho às nove. Intervalo de 3h15min entre dois pontos. Até aí tudo fácil.
Ficou difícil quando ele acordou e olhou no relógio: 04:32 AM.
Agora fudeu.
Levanta correndo, caminha a esmo. O que o tira da cama é apenas o reflexo, pois não sabe ainda o que fazer. Vagueia pelo apartamento às escuras, ainda não acordou. “Melhor passar uma água na cara”, pensa.
“Será que tem ônibus às cinco? Será que é direto ou comum? Será que a minha passagem ainda vale?”
Uma coisa de cada vez.
Internet. Expresso Embaixador. Lista de horários. Ok. 5 horas. Olha no relógio: 04:41 AM.
“Acorda tchê, que eu perdi o ônibus, vamos lá ver se consigo pegar o das cinco.”
Mochila ok, mateira ok, chave da casa ok, carteira ok, passagem ok. Vambora.
Ao chegar na primeira esquina, a percepção inevitável: celular NÃO ok. Raios. Fica pra próxima.
Rodoviária. Guichê. Faltam dois passos para chegar no balcão, é possível ouvir o finzinho da frase dita ao cliente da vez: “ ... cinco horas não tem mais, agora só às seis.”
Caralho.
UTI. Ultima tentativa do indivíduo. O motorista. Alguém deve se atrasar. “Eu não posso ser o ÚNICO imbecil do mundo” , ele pensa. Parafraseando uma amiga, ele se dá conta de que esta “virado numa cruzêra”. E ri sozinho.
Desce a rampa. Dois carros. Conversando com os motoristas, descobre que já tem um na fila de espera. Ou seja, é necessário que existam DOIS imbecis a mais. É justo. Uma das coisas mais certas na vida é de que sempre se pode contar com a imbecilidade humana.
O primeiro carro dá a partida. Ele faz sinal para o motorista, que pelo vidro, coloca o polegar para baixo, com cara de comiseração. E parte.
Só resta um carro. A resposta do motorista: “tem UM lugar vago.”
Qualquer aproximação de pessoa com mala, bolsa, valise, é seguida de perto com um arrepio na espinha. Ninguém chega. Parece que vai dar.
Não.
O condicionador de ar do ônibus está com defeito, é necessário esperar que venha outro carro da garagem. São 05:07 AM.
05:11 AM.
05:17 AM.
05:23 AM.
“PUTAQUIUPARIUCADÊESSAPÔRRADESSEÔNIBUSCARALHO??”
05:26 AM. Chegou.
Desce todo mundo. Trocam-se as malas de bagageiro. Não é possível ver se chegou algum retardatário nesse intervalo de troca de carros.
Tudo pronto. Pergunta pro motorista: “E aí?”
Ele olha pro interior do ônibus, olha para minha passagem vencida.
“Vamu lá.”
Ele lembra de respirar pela primeira vez desde que saiu de casa.
Mochila e mateira vão para o bagageiro, ele entra no bus.
“Porra, mas não tinha uma janela?”
he.
“Báh, acho que depois de toda essa tensão, nem vou conseguir dor...
...
NÃO ESQUEÇA SUA BAGAGEM DE MÃO”
Já?

Friday, November 18, 2005

ANOTAÇÕES MENTAIS PARA O FINAL DE SEMANA

Bom. Assim ó:
* não esquecer de levar para passar na lavanderia a camisa para usar no casamento hoje à noite. (outra anotação: escrever um post sobre a onda de casamentos que assola os amigos e conhecidos, em pleno século XXI. Utilizar algumas idéias do texto sobre o "pressuposto" (post abaixo));
*não esquecer de manter as mínimas condições no casamento de hoje à noite, para poder participar de maneira, no mínimo, decente, no TRADICIONAL GRENAL DE FINAL DE ANO da empresa;
*arrumar aquele pandemônio no qual está virado o que um dia já foi chamado de "minha casa";
*comprar erva para o chimarrão no mercado público, já que sexta feira é o dia que ela chega em fardos fresquinhos, direto da fábrica;
*esquecer um pouco deste meu exacerbado bom senso na gaveta da minha mesa, e só recobrá-lo na segunda-feira;
*organizar o churrasco para assistir a conquista do título nacional pelo glorioso COLORADO DO MEU CORAÇÃO (veuve cliquot já está no gelo)
*após o jogo de domingo, se ninguém mais ouvir falar de mim, poderá ser em virtude dois motivos:
1º- de tão, mas tão feliz, atingi a graça plena, subi aos céus e voltei na forma de um quero-quero daqueles que passeiam soberanos na intermediária do Beira-rio, ou:
2º- pontinhos, pontinhos, pontinhos - (deixo em aberto este espaço nos comentários)

Thursday, November 03, 2005

IDEM AO ANTERIOR

THE TALK

Pesquisa informal conduzida pela NoronhaCorp na semana passada indica que 12 entre 10 marmanjos morrem de medo dessa conversa. A CONVERSA, cês sabem: aquela que explicita compromissos –or lack thereof- em um romance que até aquele momento flutuava sem contornos definidos, envolto na nuvem de hormônios e sentimentos sem nome que fazem com que gente que não diz mais “manhê, acabei” quando vai ao banheiro passe a se comportar como pré-adolescente, com direito a risadinhas compulsivas e rubores abestalhados. Já 12 entre 10 das mina consultadas pelos nossos laboriosos pesquisadores contra-argumentam que os mano, basicamente, padecem daquilo que os conselheiros sentimentais americanos apelidaram “fear of commitment”, e o medo da conversa é a expressão mais clara desse outro medo aí.Permitam-me aqui tomar por exemplo da situação um cidadão hipotético –vamos chamá-lo Fudílson- que poderia estar enfrentando esse tipo de enrascada. Valho-me uma vez mais dos privilégios reservados ao narrador onisciente e escancaro já nas preliminares: não, o Fudílson não tem medo de compromisso. Mas mesmo assim tem medo DA CONVERSA. O medo da conversa tem muito pouco a ver com o medo de assumir compromissos afetivos para com uma dama à qual, alas, nosso herói dedica afeto. O vilão da história é mais esquivo, e atende pelo hediondo nome de “pressuposto”.Funciona assim: dois adultos descobrem que têm interesses eróticos mútuos. Ou que gostam de basquete. Ou que o senso de humor de alguém é irresistível a ponto de quererem passar horas e horas com a pessoa trocando gargalhadas diante dos trocadilhos mais idiotas. Já que é uma situação hipotética, vamos limpar o campo de jogo: os dois são solteiros, nenhum dos dois tem filhos, os dois têm carreiras marromenos resolvidas. Isso teoricamente deveria significar uma enorme liberdade para definir os parâmetros de como eles namoram (ou similar nacional). Mas, alas, mexendo os olhinhos em todos os quadros da mansão mal-assombrada a gente encontra sempre o Pressuposto. E o Pressuposto dispõe que se duas pessoas se dão bem, têm gostos e preferências compatíveis, funcionam agradavelmente entre os lençóis e não têm bois (ou vacas) na linha devem “levar adiante” o relacionamento delas. “Levar adiante” quer dizer, o mais vezes, a progressão genérica “morar junto/ casar/ fazer filho/ happy ever after”. Vejam, eu não tô atribuindo a nenhuma das duas partes responsabilidade primordial pelo Pressuposto. O Fudílson não pensa na dona Increnca dele imaginando que ela esteja planejando e manobrando incessantemente para levá-lo ao altar –até porque sabe que, ops, he’s far from being a great catch. Mas o nosso herói supõe que ela tenha em mente o Pressuposto, como ele tem, e como todo mundo mais parece ter.O medo DA CONVERSA, portanto, é o medo de confrontar e potencialmente contrariar o pressuposto. Para exemplificar, digamos que o Fudílson não queira casar, ou morar junto, e definitivamente não queira filhos. O mundo do Pressuposto leva suas vítimas a acreditar que esses fatores são completamente circunstanciais –ou seja, o Fudílson não quer se casar (com a dona X), não quer morar junto (com a dona Y) e não quer ter filhos (com a dona Z). Mas, tão logo tenha encontrado O Grande Amor, alas, tudo isso muda e as convicções que ele defendeu durante anos, bumba, se vão ralo abaixo. (O que representa, no mínimo, um tremendo desrespeito ao livre arbítrio e à honestidade moral do Fudílson, da parte dos navegantes do Pressuposto.) Assim, seguir o Pressuposto, por mais afrontoso que seja aos olhos do Fudílson, passa perversamente a ser considerado “prova de amor”, enquanto contrariar o Pressuposto se torna, sempre, uma declaração de desinteresse.E não só isso que enrosca. Tem também uma questão prática que é muito delicada e muito embaraçosa. Ou seja, qual é a hora certa de ter A CONVERSA? Quando, exatamente, o Fudílson deve informar a detentora de seus afetos de que, “ô, Maria Alice, eu te amo, e quero ficar com você. Mas basicamente não quero casar, ou morar junto, ou ter filhos”. (É, eu sei: a frase soa cínica pra danar, sob o cânone do Pressuposto, mas será que é tão cínica, mesmo?) Nenhuma das hipóteses quanto ao timing soa animadora –se o Fudílson parte para A CONVERSA, digamos, no terceiro encontro, é cedo o bastante pra que a moça não perca tempo demais com um relacionamento que talvez não vá lhe propiciar o que deseja. Por outro lado, é um tremendo corta-barato: os dois mal tiveram tempo de explorar as diversões que os levaram ao rala-e-roça e já tá lá aquele enorme paralelepípedo: “Lovely, but no ring from me, dear”. Plus, sempre vai soar pretensioso (se a Maria Alice, ao receber um comunicado desse tipo no terceiro encontro, olhasse feio pro Fudílson e respondesse “mas quem disse que eu quero casar com você, criatura?”, até ele daria risada). Por outro lado, esperar, sei lá, um ano, pode parecer enrolação –“só agora você vai me dizer isso, seu biltre?” Porque, veja, o narrador onisciente gostaria de deixar bem claro que o Fudílson não é calhorda. Confuso e teimoso, com certeza, mas não calhorda.No passado não tão distante, e tremendamente hipócrita, a vida romântica era regida por centos rituais, quase todos pavorosamente cafonas, mas, yo, pelo menos havia um guia para a forma que essas coisas deveriam tomar. Agora, amores, paixões, casamentos, amizades com benefícios, casos, mercy fucks, ménages, contratos de servidão sadomasô, noivados, namoros -hétero, homo, bi e assexuais- proliferam como fungos, e os rituais, tadinhos, só funcionam como paródia (melhor não esquecer que “loveletter” virou nome de vírus). É difícil decidir o que dizer, como dizer e –especialmente- quando dizer. E as palavras, coitadas, depois de tantas reciclagens nos beiços de galãs mexicanos, astros de comédia romântica, estrelinhas de sitcoms, colunistas de conselhos, diálogos lame-o de Sex and the City, perderam completamente a capacidade de dizer com um mínimo de convicção coisas simples como “yo, eu gosto de você”. (O narrador onisciente, aliás, em momento de luminoso desespero romântico uns meses atrás, decidiu chutar o balde, voltar à quarta série e dizer –literalmente- “eu gosto de você” pra mulher mais diliça do mundo. Para sorte dele, ela tem mais senso de humor que senso crítico e entendeu.) Então, meninas, tenham uma certa dó dos rapazes quando eles respondem com grunhidos neanderthal a qualquer tentativa de “discutir a relação”. E vocês, rapazes, tenham em mente que as meninas talvez prefiram ouvir a verdade em lugar daquelas clássicas enroladas masculinas, quando não houver grunhido que os livre DA CONVERSA.A CONVERSA do Fudílson, cês querem saber? Já rolou. O namoro sobreviveu. Tem uns mano que definitivamente nascem com mais sorte que juízo.

SPECIAL GUEST: FILTHY McNASTY

Domingo. Sandra saiu de casa cedo para passar o dia com a mamma, deixando Sérgio em casa pra curtir o futebol na companhia dos amigos. Dez da noite, ela ainda não tinha voltado, e ele estava preocupado. Perto das onze, ligou para a sogra. “A Sandra? Nem apareceu aqui hoje”. Sérgio entrou em pânico, mas não quis assustar a velha. Ligou pras amigas de Sandra. Para a polícia. Fez a ronda dos hospitais, a madrugada toda. Nada, nem sinal. Não dormiu, e saiu agoniado para o trabalho segunda cedo. O dia passou sem notícias, e no final da tarde ele ligou para a editora onde Sandra frilava. Ela estava lá, e interrompeu a reclamação dele na segunda sentença. “Vem me buscar quando fechar. Precisamos conversar”. A “conversa” era um monólogo -leitmotiv: fuss und arsch. Sandra não deu explicações, não aceitou argumentos, não recuou um palmo. Ele, furioso, ofendido e em pânico, largou a mulher –que se recusava a dizer onde estava hospedada- no metrô, e foi pra casa se sentindo otário. No dia seguinte, depois de 10 telefonemas vãos, acabou concordando em deixar o apartamento a disposição dela para que o esvaziasse de suas coisas, no final de semana. E quando voltou de Minas, domingo, Hiroshima em Higienópolis –até espelhos de interruptor de luz ela tinha levado.Seis meses de inferno. A cada vez que insistia em contactá-la, ela respondia com queixas, recriminações, críticas. Foi acusado de crueldade, mesquinharia, insuficiência peniana, desatenção, mau hálito, burrice. Ouviu frases como “mulher que nem eu não suporta viver com um cara que admira os Estados Unidos”. (Ele anglófilo, ela francófona: nunca motivo de briga até ali.) E de todos os amigos comuns que tinham (três anos de namoro, dois morando juntos) surgiam notícias sobre Sandra e o novo namorado, nova casa, nova vida. A suspeita –ou certeza- de infidelidade já era uma miércoles, mas o fato de que Sandra negasse qualquer influência desse fator sobre o pé na bunda era ainda pior. Porque, enfim, é melhor ser dispensado quando a mulé amada se apaixona por outro (vaca, mas pelo menos romântica) do que ser dispensado por um catálogo de defeitos que começa pela escolha de desodorante e termina na falta de capacidade intelectual para compreender as sutilezas de Derrida. Como todo otário abandonado, Sérgio terminou por se conformar. E descobriu que a melhor maneira de encarar a situação era não encarar: parou de se interessar por ela, de pedir informações, de alimentar esperanças de reconquista ou desejos de vendetta. Tesourou todos os amigos que insistiam em mencionar o tema. E pôs o assunto pra dormir, ressalvando, de si para si, como sói aos melancólicos e românticos de armário, que estaria lá, se e quando ela precisasse.Uma amiga, que virou namorada, o apresentou às composições de Erik Satie. Aprendeu tudo que precisava sobre le désespoir agréable. E sobreviveu. Mudou de apê e emprego, foi promovido. Uma noite, dois anos depois do cataclismo, chegando em casa de madrugada depois de um fechamento enroscado, encontrou um recado de Sandra na secretária. “Preciso muito falar com você”. Por sorte, ela não deixara o número e, ainda que uma nota de tentação lhe acelerasse o pulso, fez o que tinha aprendido: ignorou o apelo e foi dormir. Mas Sandra voltou a ligar, dessa vez deixando o número. E ele continuou ignorando. As ligações se repetiam, quase todos os dias. Até que um dia ela ligou na redação. Ele atendeu, reconheceu a voz, ficou sem ação. Ela explicou, solicitou, implorou, e ele –sem jeito de levar aquela conversa na presença da editoria inteira- cedeu: dia seguinte, no bar, às dez. Chegou atrasado, mercê do fechamento, e ela já estava lá, bonita como sempre, ansiosa como sempre, roendo as unhas manicuradas. Ele hesitou antes de beijá-la no rosto, e depois se sentou. Conversaram fiado, ela querendo saber como a vida dele andava, ele lacônico. Até que Sérgio perguntou: “E então?” E Sandra despejou um Himalaia de explicações, desculpas, psychobabble, mentiras, provavelmente algumas verdades. De um lado, Sérgio se sentiu feliz por ver confirmadas muitas das suas queixas, por vê-la admitir muitos dos erros que ele lhe atribuía, se desculpar pelos chifres, explicar as acusações. De outro, ressabiado como é normal nos mano de coração partido, não conseguiu deixar de interromper o stream of (guilty) consciousness alheio e perguntar: “Mas por que isso, baby, e por que agora?” E ela deixou escorrer duas lágrimas gordas e cintilantes pelos zigomas notáveis que são jizuis lhe deu e respondeu: “Porque eu te amo. Porque eu quero voltar pra você”.Se isso aqui fosse um filme, Sérgio deixaria que a emoção triunfasse sobre a desconfiança, deixaria que as lágrimas comovidas da mulher que mais amara varressem as cicatrizes que as cagadas do passado causaram, e abriria os braços pra ela. Mas ninguém é otário a vida inteira (tá bom, excetuado quem acredita em astrologia), e ele se levantou, deixou uma nota de 10 mango em cima da mesa pra pagar o uísque e disse, já dando as costas para Sandra e aquele dirty mess que só mulé é capaz de causar: “Fuck you and the horse you rode in on”. E riu, descendo a escada, ao lembrar que ela não entendia inglês.

Tuesday, November 01, 2005

TRECHINHO MEMORÁVEL


Melvin Udall: I've got a really great compliment for you, and it's true.
Carol: I'm so afraid you're about to say something awful.
Melvin Udall: Don't be pessimistic, it's not your style. Okay, here I go: Clearly, a mistake. I've got this, what - ailment? My doctor, a shrink that I used to go to all the time, he says that in fifty or sixty percent of the cases, a pill really helps. I *hate* pills, very dangerous thing, pills. Hate. I'm using the word "hate" here, about pills. Hate. My compliment is, that night when you came over and told me that you would never... well, you were there, you know what you said. Well, my compliment to you is, the next morning, I started taking the pills.
Carol: I don't quite get how that's a compliment for me.
Melvin Udall: You make me want to be a better man.
Carol: ... That's maybe the best compliment of my life.
Melvin Udall: Well, maybe I overshot a little, because I was aiming at just enough to keep you from walking out.