THE TALK
Pesquisa informal conduzida pela NoronhaCorp na semana passada indica que 12 entre 10 marmanjos morrem de medo dessa conversa. A CONVERSA, cês sabem: aquela que explicita compromissos –or lack thereof- em um romance que até aquele momento flutuava sem contornos definidos, envolto na nuvem de hormônios e sentimentos sem nome que fazem com que gente que não diz mais “manhê, acabei” quando vai ao banheiro passe a se comportar como pré-adolescente, com direito a risadinhas compulsivas e rubores abestalhados. Já 12 entre 10 das mina consultadas pelos nossos laboriosos pesquisadores contra-argumentam que os mano, basicamente, padecem daquilo que os conselheiros sentimentais americanos apelidaram “fear of commitment”, e o medo da conversa é a expressão mais clara desse outro medo aí.Permitam-me aqui tomar por exemplo da situação um cidadão hipotético –vamos chamá-lo Fudílson- que poderia estar enfrentando esse tipo de enrascada. Valho-me uma vez mais dos privilégios reservados ao narrador onisciente e escancaro já nas preliminares: não, o Fudílson não tem medo de compromisso. Mas mesmo assim tem medo DA CONVERSA. O medo da conversa tem muito pouco a ver com o medo de assumir compromissos afetivos para com uma dama à qual, alas, nosso herói dedica afeto. O vilão da história é mais esquivo, e atende pelo hediondo nome de “pressuposto”.Funciona assim: dois adultos descobrem que têm interesses eróticos mútuos. Ou que gostam de basquete. Ou que o senso de humor de alguém é irresistível a ponto de quererem passar horas e horas com a pessoa trocando gargalhadas diante dos trocadilhos mais idiotas. Já que é uma situação hipotética, vamos limpar o campo de jogo: os dois são solteiros, nenhum dos dois tem filhos, os dois têm carreiras marromenos resolvidas. Isso teoricamente deveria significar uma enorme liberdade para definir os parâmetros de como eles namoram (ou similar nacional). Mas, alas, mexendo os olhinhos em todos os quadros da mansão mal-assombrada a gente encontra sempre o Pressuposto. E o Pressuposto dispõe que se duas pessoas se dão bem, têm gostos e preferências compatíveis, funcionam agradavelmente entre os lençóis e não têm bois (ou vacas) na linha devem “levar adiante” o relacionamento delas. “Levar adiante” quer dizer, o mais vezes, a progressão genérica “morar junto/ casar/ fazer filho/ happy ever after”. Vejam, eu não tô atribuindo a nenhuma das duas partes responsabilidade primordial pelo Pressuposto. O Fudílson não pensa na dona Increnca dele imaginando que ela esteja planejando e manobrando incessantemente para levá-lo ao altar –até porque sabe que, ops, he’s far from being a great catch. Mas o nosso herói supõe que ela tenha em mente o Pressuposto, como ele tem, e como todo mundo mais parece ter.O medo DA CONVERSA, portanto, é o medo de confrontar e potencialmente contrariar o pressuposto. Para exemplificar, digamos que o Fudílson não queira casar, ou morar junto, e definitivamente não queira filhos. O mundo do Pressuposto leva suas vítimas a acreditar que esses fatores são completamente circunstanciais –ou seja, o Fudílson não quer se casar (com a dona X), não quer morar junto (com a dona Y) e não quer ter filhos (com a dona Z). Mas, tão logo tenha encontrado O Grande Amor, alas, tudo isso muda e as convicções que ele defendeu durante anos, bumba, se vão ralo abaixo. (O que representa, no mínimo, um tremendo desrespeito ao livre arbítrio e à honestidade moral do Fudílson, da parte dos navegantes do Pressuposto.) Assim, seguir o Pressuposto, por mais afrontoso que seja aos olhos do Fudílson, passa perversamente a ser considerado “prova de amor”, enquanto contrariar o Pressuposto se torna, sempre, uma declaração de desinteresse.E não só isso que enrosca. Tem também uma questão prática que é muito delicada e muito embaraçosa. Ou seja, qual é a hora certa de ter A CONVERSA? Quando, exatamente, o Fudílson deve informar a detentora de seus afetos de que, “ô, Maria Alice, eu te amo, e quero ficar com você. Mas basicamente não quero casar, ou morar junto, ou ter filhos”. (É, eu sei: a frase soa cínica pra danar, sob o cânone do Pressuposto, mas será que é tão cínica, mesmo?) Nenhuma das hipóteses quanto ao timing soa animadora –se o Fudílson parte para A CONVERSA, digamos, no terceiro encontro, é cedo o bastante pra que a moça não perca tempo demais com um relacionamento que talvez não vá lhe propiciar o que deseja. Por outro lado, é um tremendo corta-barato: os dois mal tiveram tempo de explorar as diversões que os levaram ao rala-e-roça e já tá lá aquele enorme paralelepípedo: “Lovely, but no ring from me, dear”. Plus, sempre vai soar pretensioso (se a Maria Alice, ao receber um comunicado desse tipo no terceiro encontro, olhasse feio pro Fudílson e respondesse “mas quem disse que eu quero casar com você, criatura?”, até ele daria risada). Por outro lado, esperar, sei lá, um ano, pode parecer enrolação –“só agora você vai me dizer isso, seu biltre?” Porque, veja, o narrador onisciente gostaria de deixar bem claro que o Fudílson não é calhorda. Confuso e teimoso, com certeza, mas não calhorda.No passado não tão distante, e tremendamente hipócrita, a vida romântica era regida por centos rituais, quase todos pavorosamente cafonas, mas, yo, pelo menos havia um guia para a forma que essas coisas deveriam tomar. Agora, amores, paixões, casamentos, amizades com benefícios, casos, mercy fucks, ménages, contratos de servidão sadomasô, noivados, namoros -hétero, homo, bi e assexuais- proliferam como fungos, e os rituais, tadinhos, só funcionam como paródia (melhor não esquecer que “loveletter” virou nome de vírus). É difícil decidir o que dizer, como dizer e –especialmente- quando dizer. E as palavras, coitadas, depois de tantas reciclagens nos beiços de galãs mexicanos, astros de comédia romântica, estrelinhas de sitcoms, colunistas de conselhos, diálogos lame-o de Sex and the City, perderam completamente a capacidade de dizer com um mínimo de convicção coisas simples como “yo, eu gosto de você”. (O narrador onisciente, aliás, em momento de luminoso desespero romântico uns meses atrás, decidiu chutar o balde, voltar à quarta série e dizer –literalmente- “eu gosto de você” pra mulher mais diliça do mundo. Para sorte dele, ela tem mais senso de humor que senso crítico e entendeu.) Então, meninas, tenham uma certa dó dos rapazes quando eles respondem com grunhidos neanderthal a qualquer tentativa de “discutir a relação”. E vocês, rapazes, tenham em mente que as meninas talvez prefiram ouvir a verdade em lugar daquelas clássicas enroladas masculinas, quando não houver grunhido que os livre DA CONVERSA.A CONVERSA do Fudílson, cês querem saber? Já rolou. O namoro sobreviveu. Tem uns mano que definitivamente nascem com mais sorte que juízo.