Monday, September 04, 2006

MAIS CHUVA


CHUVA (III)
Há quem goste de churrasco, e há quem –como Bernardo- os odeie ferozmente, mas é improvável que exista alguém que considere churrascos, especialmente churrascos tribais, rurais, como cenário ideal para les affaires du couer. Não tem charme –nem mesmo charme rústico- que resista a comer maionese em pratinho de papel enquanto um aparelho de som colocado sobre o trampolim repete esganiçadamente os maiores sucessos do Simply Red. Ainda que Bernardo e Ana se tivessem acomodado em um canto discreto –os degraus de madeira da escadinha lateral da varanda-, o barulho da festa e o vento que rugia ameaçando carregar com ele as latas de cerveja morna depositadas aos pés dos dois não ajudava a criar um clima, e Bernardo, cuja discrição era essencialmente timidez, precisava de “um clima”. E de um curso de eloqüência, um remédio contra a gagueira, uma dose de antidepressivo que o fizesse esquecer a vergonha de ter perguntado a quase todos os convidados do churrasco sobre a mulher com quem dividia os degraus e a obrigação de impedir que a farofa voasse.
Depois da primeira e curta conversa na varanda, Ana pediu licença para retornar à companhia das amigas –“preciso dar uma desculpa”- e disse que voltaria em seguida. Bernardo passou 10 sofridos minutos contemplando o horizonte com um olhar que esperava meditativo, para não ter que encarar o burburinho da fofoca entre os amigos. Ana o surpreendeu voltando tão rápido quanto prometera, e com as mãos carregadas: “Te fiz um prato”. Bernardo imediatamente lembrou de ordálios semelhantes na infância -a mãe, preocupada com o desajeito paterno, cuidando de manter o marido abastecido de comida e bebida, em uma mistura de carinho, piedade e medo de vexame que Bernardo percebia em menino de maneira tão aguda quanto agora. “Ela me fez um prato”, ele pensava, enquanto os dois tateavam à procura de assunto, defendiam a farofa, ancoravam a cerveja e sorriam como se há muito já fossem aquilo que um dia viriam a ser.
“Quando parou de chover, eu voltei ao terraço para filar mais um cigarro, mas você sumiu”, Ana disse, relembrando o primeiro encontro. “Fui embora cedo. Ia me despedir de você mas...” Bernardo pensou em dizer “mas você estava com a língua na boca de um barbudo”, e como sempre se arrependeu, completando com “não te encontrei”. Ana sorriu. “Tropecei em um ex-namorado na festa. Ex-namorado saudoso, música ruim, champanhe barato, chuva: receita de caca”. Enquanto os dois conversavam, a tarde escurecia: mais e mais nuvens se acotovelavam no céu, suas fímbrias escuras iluminadas por clarões de relâmpagos que estalavam ao longe, o ar cheirando a ozônio. Não houve transição entre ameaça e dilúvio –nada de pingos, depois garoa, depois chuva, depois temporal. A tempestade chegou instantaneamente, densa e escura como sopa, apanhando metade dos convidados ainda a descoberto. Bernardo e Ana subiram correndo a escada, se esconderam em um canto da varanda poupado pela chuva. A dona do sítio chegou, encharcada, rindo. Olhou na direção da piscina: “Putz, lá se vai o som”. Bernardo, sem hesitar, guardou o óculos no bolso da camisa e saiu correndo pela chuva, na direção do trampolim. Voltou com o aparelho de som ainda funcionando, se bem que fora de rotação e em timbre de Darth Vader. Ana o abraçou, envolvendo-o em uma toalha. “Meu herói. Eu nunca imaginei que você gostasse tanto dos Tribalistas”. Meia dúzia de espectadores riram da careta de Bernardo. “Eu avisei que ia chover”, ele resmungou.

1 Comments:

hjdhsjhdjsjds Anonymous Anonymous said...

oi paul! que legal este texto, de quem é? gabriel chegou, tem fotos lá no blog. e tudo bem contigo? manda notícias! beijos da isa.

12/9/06 8:39 PM  

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