MAIS CHUVA

CHUVA (III)
Há quem goste de churrasco, e há quem –como Bernardo- os odeie ferozmente, mas é improvável que exista alguém que considere churrascos, especialmente churrascos tribais, rurais, como cenário ideal para les affaires du couer. Não tem charme –nem mesmo charme rústico- que resista a comer maionese em pratinho de papel enquanto um aparelho de som colocado sobre o trampolim repete esganiçadamente os maiores sucessos do Simply Red. Ainda que Bernardo e Ana se tivessem acomodado em um canto discreto –os degraus de madeira da escadinha lateral da varanda-, o barulho da festa e o vento que rugia ameaçando carregar com ele as latas de cerveja morna depositadas aos pés dos dois não ajudava a criar um clima, e Bernardo, cuja discrição era essencialmente timidez, precisava de “um clima”. E de um curso de eloqüência, um remédio contra a gagueira, uma dose de antidepressivo que o fizesse esquecer a vergonha de ter perguntado a quase todos os convidados do churrasco sobre a mulher com quem dividia os degraus e a obrigação de impedir que a farofa voasse.
Depois da primeira e curta conversa na varanda, Ana pediu licença para retornar à companhia das amigas –“preciso dar uma desculpa”- e disse que voltaria em seguida. Bernardo passou 10 sofridos minutos contemplando o horizonte com um olhar que esperava meditativo, para não ter que encarar o burburinho da fofoca entre os amigos. Ana o surpreendeu voltando tão rápido quanto prometera, e com as mãos carregadas: “Te fiz um prato”. Bernardo imediatamente lembrou de ordálios semelhantes na infância -a mãe, preocupada com o desajeito paterno, cuidando de manter o marido abastecido de comida e bebida, em uma mistura de carinho, piedade e medo de vexame que Bernardo percebia em menino de maneira tão aguda quanto agora. “Ela me fez um prato”, ele pensava, enquanto os dois tateavam à procura de assunto, defendiam a farofa, ancoravam a cerveja e sorriam como se há muito já fossem aquilo que um dia viriam a ser.
“Quando parou de chover, eu voltei ao terraço para filar mais um cigarro, mas você sumiu”, Ana disse, relembrando o primeiro encontro. “Fui embora cedo. Ia me despedir de você mas...” Bernardo pensou em dizer “mas você estava com a língua na boca de um barbudo”, e como sempre se arrependeu, completando com “não te encontrei”. Ana sorriu. “Tropecei em um ex-namorado na festa. Ex-namorado saudoso, música ruim, champanhe barato, chuva: receita de caca”. Enquanto os dois conversavam, a tarde escurecia: mais e mais nuvens se acotovelavam no céu, suas fímbrias escuras iluminadas por clarões de relâmpagos que estalavam ao longe, o ar cheirando a ozônio. Não houve transição entre ameaça e dilúvio –nada de pingos, depois garoa, depois chuva, depois temporal. A tempestade chegou instantaneamente, densa e escura como sopa, apanhando metade dos convidados ainda a descoberto. Bernardo e Ana subiram correndo a escada, se esconderam em um canto da varanda poupado pela chuva. A dona do sítio chegou, encharcada, rindo. Olhou na direção da piscina: “Putz, lá se vai o som”. Bernardo, sem hesitar, guardou o óculos no bolso da camisa e saiu correndo pela chuva, na direção do trampolim. Voltou com o aparelho de som ainda funcionando, se bem que fora de rotação e em timbre de Darth Vader. Ana o abraçou, envolvendo-o em uma toalha. “Meu herói. Eu nunca imaginei que você gostasse tanto dos Tribalistas”. Meia dúzia de espectadores riram da careta de Bernardo. “Eu avisei que ia chover”, ele resmungou.
Depois da primeira e curta conversa na varanda, Ana pediu licença para retornar à companhia das amigas –“preciso dar uma desculpa”- e disse que voltaria em seguida. Bernardo passou 10 sofridos minutos contemplando o horizonte com um olhar que esperava meditativo, para não ter que encarar o burburinho da fofoca entre os amigos. Ana o surpreendeu voltando tão rápido quanto prometera, e com as mãos carregadas: “Te fiz um prato”. Bernardo imediatamente lembrou de ordálios semelhantes na infância -a mãe, preocupada com o desajeito paterno, cuidando de manter o marido abastecido de comida e bebida, em uma mistura de carinho, piedade e medo de vexame que Bernardo percebia em menino de maneira tão aguda quanto agora. “Ela me fez um prato”, ele pensava, enquanto os dois tateavam à procura de assunto, defendiam a farofa, ancoravam a cerveja e sorriam como se há muito já fossem aquilo que um dia viriam a ser.
“Quando parou de chover, eu voltei ao terraço para filar mais um cigarro, mas você sumiu”, Ana disse, relembrando o primeiro encontro. “Fui embora cedo. Ia me despedir de você mas...” Bernardo pensou em dizer “mas você estava com a língua na boca de um barbudo”, e como sempre se arrependeu, completando com “não te encontrei”. Ana sorriu. “Tropecei em um ex-namorado na festa. Ex-namorado saudoso, música ruim, champanhe barato, chuva: receita de caca”. Enquanto os dois conversavam, a tarde escurecia: mais e mais nuvens se acotovelavam no céu, suas fímbrias escuras iluminadas por clarões de relâmpagos que estalavam ao longe, o ar cheirando a ozônio. Não houve transição entre ameaça e dilúvio –nada de pingos, depois garoa, depois chuva, depois temporal. A tempestade chegou instantaneamente, densa e escura como sopa, apanhando metade dos convidados ainda a descoberto. Bernardo e Ana subiram correndo a escada, se esconderam em um canto da varanda poupado pela chuva. A dona do sítio chegou, encharcada, rindo. Olhou na direção da piscina: “Putz, lá se vai o som”. Bernardo, sem hesitar, guardou o óculos no bolso da camisa e saiu correndo pela chuva, na direção do trampolim. Voltou com o aparelho de som ainda funcionando, se bem que fora de rotação e em timbre de Darth Vader. Ana o abraçou, envolvendo-o em uma toalha. “Meu herói. Eu nunca imaginei que você gostasse tanto dos Tribalistas”. Meia dúzia de espectadores riram da careta de Bernardo. “Eu avisei que ia chover”, ele resmungou.

1 Comments:
oi paul! que legal este texto, de quem é? gabriel chegou, tem fotos lá no blog. e tudo bem contigo? manda notícias! beijos da isa.
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